"ser de esquerda hoje é preferir a desordem à injustiça"
(Bernard Henry-Lévi, filósofo francês)



quarta-feira, 27 de outubro de 2010

....terrorismo eleitoral enfraquece democracia....

A eleição revigora a democracia e deve ser um processo civilizatório. O discurso do medo e do "fim dos tempos" apenas acentua a ira entre os adversários e desvia a discussão da esfera da política, onde os candidatos e seus partidos têm diferenças sensíveis






Carnificina pura.

Para quem ficou enjoado com debates insossos no primeiro turno, o encontro da TV Record foi uma prova do quanto a temperatura aumentou na campanha eleitoral.

Que o eleitor não se anime demais. A política continuou de fora das discussões, mas a troca de acusações entre os candidatos foi crescendo em progressão geométrica.

É tanta acusação entre um e outro, nessa reta final de campanha, que seria mais fácil reunir logo Erenice e Paulo Preto e fazer um debate entre eles.

Grande responsabilidade pelo aumento da temperatura da campanha se deve ao emprego, no estertor do primeiro turno, do terrorismo eleitoral, que misturou apego à religião e um discurso do medo.

A grande imprensa, inclusive o incensou, tratando a possível eleição da sucessora de Lula como o início do fim da democracia.

Dilma, é verdade, não se fez de rogada, e no primeiro debate do segundo turno, despejou o seu saco de maldades, de modo a evitar o nascimento de uma onda contrária, que até o momento não se concretizou.

A bem da verdade, ela praticamente jamais se realizou em um segundo turno. A história estatística nos mostra que são raríssimos os casos de virada na segunda fase das campanhas. Quem parte na frente, em regra ganha.

E aquele debate saudável sobre política, quando enfim poderemos conhecer melhor os candidatos porque só sobraram dois, que sempre nos prometem no segundo turno, também raramente acontece.

Mais hora, menos hora, alguém nos saca um discurso do medo provando, por a+b, que a vitória do seu oponente significará certamente o fim dos tempos.

Regina Duarte, em 2002, falou por não mais de um minuto e ainda é lembrada como Gérson na propaganda do "levar vantagem". Eu tenho medo, dizia a atriz, na ante-sala do apocalipse.

Nesta eleição, o terrorismo eleitoral valeu-se em grande parte de anônimos. Uma saraivada de mensagens eletrônicas dispersas, mas profundamente organizadas, foi disparada para incutir dúvidas e espalhar medo. A campanha depreciativa, com discutível grau de eficiência, difundiu um sem-número de mentiras eleitorais.

Mais do que simplesmente votos, a baixaria oculta conquistou a raiva, que, na democracia, tem sido sempre uma péssima conselheira.

A escalada da disputa contou com quase-agressões de militantes a ambos os candidatos, e ainda, alimentada pela idéia de um fim que justifica os meios, foi valorizada ela mesma como artifício para captação de mais votos.

O discurso do medo, o terror eleitoral, a ênfase desmedida na acusação ao adversário, não são apenas elementos insuficientes para ganhar uma eleição. São nocivos para o que fazer depois dela.

Toda eleição é uma confirmação da democracia. O pleito deve ser, sobretudo, um processo civilizatório. Para nós, que de tempos em tempos sofremos com interrupções autoritárias, páginas infelizes da nossa história, cada eleição é sempre uma vitória.

Mandato após mandato, confirmamos nossa crença de que as disputas podem ser decididas de forma livre pela vontade dos eleitores.

A idéia de alternância do poder não significa que devamos mudar de governo a cada quatro anos, mas a possibilidade de fazê-lo se assim quisermos, o que não é pouca coisa.

A instituição do segundo turno teve como meta exatamente a criação do maior consenso em torno do vitorioso. Pretendia-se evitar que um candidato com altos índices de rejeição pudesse ser eleito, no contexto de uma campanha excessivamente fragmentada. E ao mesmo tempo, fazer com que o novo presidente tivesse maior legitimidade.

Como a abstenção tradicionalmente aumenta, e o percentual de votos nulos também, não passa de uma abstração a idéia de que o presidente terá sido votado por cinqüenta por cento mais um dos eleitores.

E todo o benefício político de um segundo turno legitimador se perde com uma campanha que, em busca de votos desesperados, prenuncia o fim do mundo e estimula a ira entre os adversários. Quem quer que ganhe acaba tendo uma rejeição maior do que no final do primeiro turno.

É de política que se trata uma eleição presidencial. Em regra, como em todas as outras partes do mundo, discute-se basicamente o modelo de Estado que queremos. Os partidos têm visões diferentes sobre as dimensões e funções do Estado e os governos que suas experiências revelam o demonstraram na prática.

Não precisamos transformar diferenças em preconceitos e nem reduzir a política ao ódio.

Quem tem que sair vitorioso numa eleição é sempre o país.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

....submundo e religião na pior eleição dos últimos tempos....

O recurso à pauta religiosa como última cartada, era o que faltava nesta eleição despolitizada e visitada pelo submundo, preconceito e estimulo ao ódio.








Segundo os indicativos das pesquisas, não é possível saber com segurança, antecipadamente, quem ganhará as eleições.

Independente de quem vença, no entanto, uma coisa é certa: todos perderam.

A campanha eleitoral nos revelou várias surpresas, mas nenhuma delas agradável.

O panorama da eleição, visto de seu início, apresentava uma perspectiva de amadurecimento democrático.

Nenhum dos principais candidatos à presidência tinha vínculos com o regime militar. Um quarto de século depois da redemocratização e os políticos egressos da ditadura não mostram forças para disputar a presidência.

O que parecia ser vitória da democracia revelou-se uma farsa.

A condição de oponente à ditadura de Dilma Rousseff foi empregada à exaustão como forma de sua desmoralização pelos adversários.

Fichas policiais apócrifas foram distribuídas pela Internet, atribuindo à candidata ações das mais diversas e irreais, moldando falsamente os adjetivos de terrorista e assassina que se fariam circular pelo submundo da eleição.

2010 poderia ter sido o ano de resgate da verdade sobre o regime militar e as torturas praticadas em nome do Estado. Longe disso.

O STF pôs uma pedra sobre os fatos no julgamento da anistia, supostamente com o pretexto da cordialidade do povo e a necessidade de esquecimento do passado em nome da paz social. Mas impunes os agentes da ditadura, iniciou-se a desconstrução daqueles que lutaram pela liberdade.

A campanha eleitoral atingiu picos elevados de despolitização, em grande parte porque o alto prestígio do governo Lula desestimulou os candidatos de oposição a criticá-lo abertamente. Serra chegou a introduzi-lo em sua própria propaganda de TV.

Se a eleição teve um início morno, seu final tem se mostrado exageradamente caliente, mas sem perder a despolitização jamais. A campanha tratou de submergir na baixaria, na propagação de preconceitos e no estímulo ao ódio.

Uma visita tétrica ao passado que pretendíamos esquecer.

Em 1985, Fernando Henrique Cardoso era candidato a prefeito de São Paulo pelo PMDB, quando foi surpreendido no debate por uma pergunta do mediador Boris Casoy, indagando se acreditava em Deus. Hesitou na resposta e reclamou com o jornalista que lhe prometera não fazer essa pergunta de caráter íntimo. Candidatos nanicos a serviço do adversário lhe aplicaram a pecha de comunista e ateu e o sociólogo perdeu a eleição para um decadente Jânio Quadros.

Na disputa presidencial de 1989, o até então desconhecido Fernando Collor contou com a simpatia e algo mais da TV Globo, ensinando a todos o quanto a ajuda dos meios de comunicação podia desequilibrar uma eleição.

Mesmo assim, no segundo turno, seu adversário havia encostado nas pesquisas. A partir de então, Lula foi taxado de comunista e confiscador. Era representado como diabo vermelho nos cordéis nordestinos e se dizia que fecharia igrejas pelo país afora.

E se não bastasse o boca-a-boca maldito, uma ex-companheira foi contratada pelo adversário para expor intimidades no horário eleitoral.

Passadas mais de duas décadas, os fantasmas de Jânio e Collor voltam a assombrar marqueteiros em desespero.

Mentiras são disparadas por e-mails e as correntes do mal atingem em chofre o eleitorado classe média, onde estaria a maior parte dos indecisos.

Dilma foi a opção preferencial das pirâmides da infâmia: de matadora de crianças ao satanismo, passando por aleivosias sexuais, a candidata foi acusada de quase tudo.

No final, como bumerangue, partiu das redes sociais a revelação de um suposto aborto praticado pela esposa de Serra, que em campanha teria criticado Dilma por apoiar a 'matança de criancinhas'.

Mas se a tecla do vale-tudo, usada como nunca nestas eleições, não fosse suficiente para degradá-las, ainda restava um último pesar.

Esvaziada das comparações ideológicas entre os candidatos, por opção ou incompetência, a campanha do segundo turno foi inteiramente tomada pela pauta religiosa. Proporcionou-se um atraso secular, que manchará a biografia de quem a introduziu como última cartada.

Mais de um século depois da separação de Estado e Igreja, a religião passou a ser a falsa questão central da eleição, desde que as pesquisas constataram que o tema sangrara Dilma às vésperas do primeiro turno.

Os candidatos comungaram, fizeram testemunhos de fé nas igrejas, beijaram terços e batinas e encheram propagandas de televisão com referências aos valores dignos da família cristã. Ao final, estavam comprometidos em manter o aborto como um caso de polícia.

As milhares e milhares de mulheres que morrem anualmente no país pela realização de procedimentos clandestinos, por falta de auxílio do poder público, que esperem mais quatro anos por outra oportunidade.

Vidas continuarão a ser desperdiçadas banalmente, porque um candidato achou que podia ganhar com esses votos e uma candidata receou perder por causa deles.

Recordações desonrosas da ditadura, invertendo os papéis da história. Fantasmas da infâmia elevando o submundo à condição de estratégia eleitoral. O Estado laico em risco, pela busca desesperada de um punhado de votos crentes.

Ganhe quem ganhar, esta terá sido, sem exageros, a pior eleição dos últimos tempos.

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

....dois séculos de atraso....

O artigo que segue é do jurista Marcio Sotelo Felippe* e faz um interessante paralelo entre a concentração de terra no Brasil atual e a existente na França, às vésperas da Revolução Francesa.

Diante de nosso longo atraso, Marcio alerta sobre a falta de reforma agrária no país: “é iniqüidade social, ignorância e desinformação”





Há 220 anos na França
(publicado originalmente no Jornal Juízes para a Democracia, edição 50)



Latifúndios ocupam cerca de 50% das terras, controlados por
uma pequena quantidade de proprietários.

2,8% das propriedades rurais são latifúndios e ocupam 56,7% da extensão
territorial agriculturável do país.

A primeira dessas afirmações refere-se à situação fundiária da França antes da Revolução Francesa. A outra ao Brasil atual. Não é possível, a priori, estabelecer a exata correspondência histórica das frases. Elas dizem a mesma coisa.

Em geral há dois obstáculos históricos importantes ao progresso social. Um, obviamente,
é constituído por interesses contrariados. Outro, a desinformação. A parte da população que
não teria absolutamente nenhum interesse contrariado por políticas públicas que proporcionassem uma racional distribuição da propriedade fundiária no país – pelo contrário, somente se beneficiaria dela - é deseducada e desinformada incessantemente
pela grande imprensa. Os movimentos políticos e sociais que lutam pela reorganização
fundiária como um objetivo estratégico para a sociedade brasileira são criminalizados,
associados à idéia de “caos” e de “desordem social” e mostrados como insensatos inimigos da
propriedade. Esta é a pedra de toque do atraso, da deseducação e da ignorância: a salvaguarda do direito de propriedade.

Comparar a situação fundiária do Brasil à da existente na França antes da Revolução permite colocar um mínimo ingrediente de racionalidade na questão. A herança da Revolução
Francesa, na ordem histórica, foi exatamente a de proporcionar a democratização da propriedade, controlada em grande parte pelo clero e pela nobreza, classes ociosas
que não somavam 3% da população francesa. A reforma agrária feita na
Revolução Francesa confiscou terras da nobreza e do clero, que foram divididas e vendidas para camponeses que tiveram 10 anos para pagar.

Alguém, em sã consciência, pode supor que sem essa reforma fundiária a França seria o que é hoje? Alguém, em sã consciência, poderia associar uma política social dessa natureza à
idéia de criminalidade, de baderna social e de violação da propriedade?

Alguém, em sã consciência, poderia supor que se tratava de uma revolução socialista que eliminou o direito de propriedade?

O truque insidioso que obscurece a questão consiste em operar com uma sutil confusão de idéias: colocar no mesmo plano o direito de propriedade, em si mesmo, como conceito
jurídico e fato social, com o direito de alguns proprietários. Justamente aqueles que usam o seu direito de propriedade indiferentes à finalidade social da terra. Assim como confiscar
terras de proprietários que as utilizam para, digamos, produzir drogas que lesam uma parte da população não ofende o direito em si à propriedade, equilibrar a distribuição de terras no
Brasil não tem absolutamente nada de ofensivo ao direito de propriedade.

Pelo contrário, fortalece, nesta quadra histórica e social, o direito à propriedade.

Está em curso há algum tempo (e haverá um plebiscito a respeito) a Campanha pelo Limite da Propriedade da Terra: em defesa da reforma agrária e da soberania territorial e alimentar.

A proposta consiste em introduzir na Constituição Federal dispositivo que limite as propriedades rurais em 35 módulos fiscais. Módulo fiscal é uma medida utilizada pelo INCRA,
correspondente ao necessário para o sustento de uma família de trabalhadores e trabalhadores rurais. O que estivesse acima disto seria incorporado ao patrimônio público1. Lembre-se que 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros origina-se da agricultura camponesa. O grande negócio agrário destina-se basicamente à exportação.2 Isto é suficiente para demonstrar a importância da proposta. Benefícios para a sociedade brasileira, justiça
social, incorporação de camponeses sem terra ao mercado capitalista, libertação de milhões
de brasileiros da iniqüidade das bolsas-famílias, desgraçadamente necessárias ainda, que não
fazem de brasileiros cidadãos produtivos providos de dignidade, mas meros beneficiários do
paternalismo estatal.

Admito a razoabilidade de se debater detalhes desta proposta. Pode não ser a ideal, pode ser aperfeiçoada, pode e deve ser debatida. Só o que não se pode mais é deixar de admitir a razoabilidade de se fazer agora, no Brasil do século XXI, o que a França fez há 220 anos. O
resto é iniqüidade social, ignorância e desinformação.


* Marcio Sotelo Felippe foi Procurador Geral do Estado de São Paulo e Diretor da Escola Superior da PGE

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

....sufocando pluralismo, jornais estimulam censura....

A censura à imprensa é inadmissível na democracia. Mas o pluralismo, que é a responsabilidade social dos jornais, não tem sido respeitado nas eleições. A demissão da colunista Maria Rita Kehl foi um exemplo.







A demissão da colunista Maria Rita Kehl logo após e em razão de um artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo já seria ruim por si só se representasse apenas um ato de intolerância.

Como lembrou Eugênio Bucci, nas mesmas páginas do Estadão, a intolerância desacredita e desautoriza, sobretudo, o próprio intolerante.

Mas a punição fez um estrago ainda maior. Introduziu, de vez, e pela porta dos fundos, a imprensa no centro do debate eleitoral. É certo que no primeiro turno, o embate que não ocorria entre a candidata favorita que evitava se expor e o candidato de oposição, que evitava se opor, acabou sendo substituído por um debate de alta intensidade entre o presidente da República e a grande imprensa, com acusações mútuas.

Lula atribuía à imprensa o papel disfarçado de partido de oposição e recebia como resposta a pecha de autoritário e censor. O resultado desse custoso confronto foi o de fazer com que jornais, como o próprio Estadão, explicitassem suas preferências na eleição. Por coincidência, o artigo de Maria Rita se iniciava justamente com o elogio à franqueza do jornal, por ter comunicado aos leitores seu apoio a José Serra.

O desgaste político com as declarações do presidente e a contenda generalizada com a grande imprensa provocaram um ambiente exageradamente belicoso e o assunto da parcialidade foi sendo amenizado na campanha petista. Senão por convicção, ao menos por conveniência.

A demissão de Maria Rita Kehl reintroduziu involuntariamente o tema, em especial nas redes sociais, que o vivenciaram de forma intensa e instantânea.

Não se poderá contar a história da eleição de 2010 sem discutir o papel nela desempenhado pela grande imprensa.

E como o debate político entre as duas candidaturas seguiu esvaziado de conteúdo, inclusive pela introdução proposital de falsas questões que o atrapalharam, como o caso do aborto, o tema cresceu de importância.

É mais ou menos como se parássemos o jogo do Brasil, em face uma narração enviesada de Galvão Bueno, ao invés de discutir os gols de Kaká, ou a falta deles. Trata-se de uma regra de ouro do jornalismo, em que o repórter deve evitar, o tanto quanto possível, tornar-se ele mesmo a própria notícia, obscurecendo os fatos que pretendia cobrir.

Mas essa, apesar de tudo, ainda não foi a conseqüência mais drástica do evento.

Um jornal censurado, como o Estadão, que reproduz tal informação diariamente há mais de um ano em suas páginas, como insígnia, jamais podia estimular uma punição pela opinião.

Este é o cerne da liberdade de expressão - que as pessoas não sejam punidas pela exposição de suas idéias.

A liberdade de opinião é o combustível da democracia, mas não é possível tragar a chama apenas para si, sufocando o oxigênio dos demais. No estado democrático de direito, as liberdades não são excludentes.

O jornal Folha de S. Paulo, por sua vez, ajuizou ação para proibir uma sátira realizada por blog independente, que lhe parodiava de forma crítica.

Segundo o jornal, não se trata de censura, mas apenas da defesa de marca.

Não discuto aqui o mérito da ação ou da decisão judicial.

Apenas observo que os políticos que buscam a Justiça para esconder escândalos das páginas dos jornais também alegam que não pleiteiam censura, mas tão-somente preservar a intimidade ou o seu direito à honra.

Sinto-me à vontade para criticar a ambos, pois tenho escrito, inclusive nesta coluna, que é a ação de juízes que revigora a censura na democracia, com as proibições prévias de artigos ou matérias, supostamente justificados pela defesa de reputações.

É preciso criar uma cultura de tolerância e um ambiente de liberdade para a imprensa, justamente porque não há democracia sem ela. Mas quando é a própria imprensa quem estimula o clima de censura e punições, só podemos imaginar que alguma coisa está fora da ordem.

Há quem possa dizer que a colunista não passa de uma funcionária do jornal e pode ser livremente demitida por escrever contra sua linha editorial.

É verdade. Mas trata-se aqui de defender, então, não a liberdade de expressão, e sim a propriedade privada.

Até mesmo a propriedade privada deve atender a sua função social. Isso é mais do que um panfleto ou palavra de ordem, é um princípio constitucional.

É evidente que não se pode controlar o que um jornal publica. Toda forma de censura será, sempre, um exercício arbitrário de poder.

Tampouco é possível exigir objetividade, tal qual se aprendia nos antigos manuais de jornalismo. Mesmo o quem, como, quando, onde, dependem do espectador e as mais diversas influências interferem criando diversidade de olhares. Assim também são os juízes, que interpretam diferentemente as normas, sem que uns ou outros, possam ser culpados por agirem assim.

Por tudo isso, nos resta o pluralismo, como escape e defesa da liberdade. Está em seu exercício a responsabilidade social dos jornais.

O pluralismo é a premissa da liberdade de expressão. Ela existe justamente para garanti-lo.

Somos livres, sobretudo, para expressar nossas diferenças.

Sufocar o pluralismo em nome do exercício da liberdade não é apenas um contra-senso. É um verdadeiro paradoxo.

Nenhuma democracia prescinde do pluralismo. E a responsabilidade dos órgãos de imprensa, livres em uma sociedade livre, é estimulá-lo e não amputá-lo. Os interesses pessoais, empresariais ou mesmo partidários, inclusive durante uma eleição, jamais podem sobrepujá-lo.

O pluralismo é o pai do "outro lado", da contraposição, da alteridade.

É a voz que expressa a opinião que não nos pertence, da qual não gostamos, aquela que mais nos incomoda. E justamente por isso é tão necessária. Porque não seríamos capazes de formulá-la por nós mesmos.

A Constituição outorga à imprensa a estatura de interesse social.

Não a reduz a uma mera atividade comercial.

Proíbe expressamente toda forma de censura, para garantir sua liberdade, e lhe concede imunidade tributária, como incentivo custeado por toda a sociedade para o desempenho de uma atividade relevante para o bem comum.

O que se espera dos órgãos de imprensa é que ajam com a mesma responsabilidade social com que foram tratados pela lei, abrindo oportunidades para que as opiniões possam circular livremente.

Porque o jornalismo não pode encontrar limites na democracia. Mas a propaganda sim.


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terça-feira, 12 de outubro de 2010

.... a direita ruge....

O artigo que segue é do escritor Marcelo Carneiro da Cunha e foi publicado originalmente no Terra Magazine.

Marcelo faz uma enfática crítica à direita raivosa e as várias formas que encontra para suprimir a liberdade. A mais recente, a demissão de uma colunista em razão de um artigo que escreveu no Estadão.


A direita ruge

Marcelo Carneiro da Cunha*




Estimados leitores, sim, a direita existe. Papai Noel talvez não exista assim lá muito concretamente, existem dúvidas quanto a real natureza dos duendes e da Jessica Alba, eu sinceramente creio que pensar em OVNIS é absoluta falta de tempo ou noção, e nunca vi uma mulher dotada de senso de humor, portanto, acho que não existem.

Mas, a direita, estimados leitores, existe.

Ela faz que não, jura que se reformou e agora adora a humanidade, inclusive a que não possui conta em paraíso fiscal; ela assegura a quem estiver por perto que essa coisa de direita é ultrapassada e agora somos todos de centro, mas isso é, nas palavras da minha boa, sólida e direitista avó Jovita, papo pra boi dormir.

A direita, estimados leitores, está aqui ao nosso redor, louquinha pra mostrar o que é bom pra tosse. Ela fez que saiu de cena e se mandou para o Maranhão, onde os Sarney cuidam de tudo e ninguém diz ai sem saber para que lado o vento sopra, mas não é verdade. Ela está aqui, ela está ali, ela está em toda parte, e sempre do lado da sombra, que é onde ela se sente mais à vontade.

Se você caiu nesse conto do vigário e do bispo, de que a direita não existe, lembre que tanto o vigário quanto o bispo são os representantes dela vestidos em robes esquisitos ou em ternos de mau-gosto. Eles detestam as minorias, não é? Eles não querem saber de gays tendo os seus direitos constitucionais respeitados, não é? Mulher é tão inferior que não pode ser ordenada, não é mesmo?

A direita faz que não está ali, que agora entrou pro mercado de ações e aprendeu a se comportar, mas ela é a mesma, estimados leitores. Ela não gosta de liberdades, tem pavor dessa tal de democracia, com a qual ela finge que concorda porque não há outro jeito. Ela nunca engoliu o sapo barbudo, e foi engolida por ele, mas não se conforma.

A direita descobriu a internet, estimados leitores, e nos encheu de emails sobre o horror do PT e o fim do mundo que o Lula aprontou pra todos nós. Você não recebeu toneladas de mails raivosos e rabugentos nesses tempos e mesmo antes deles? Como se parecem esses mails? Eles não têm sabor de veneno e olhar de predador louco pela sua carcaça? Eles não ficam lhe avisando para se cuidar com tudo que está ali fora? Eles não lhe avisam que o que está ali fora quer terminar com a civilização ocidental e o direito divino dos que sempre tiveram tudo de continuar tendo? Eles não são basicamente contra tudo?

A única desvantagem séria que a direita tem em relação ao resto do mundo, é que ela pode ser desprovida de respeito por você e de escrúpulos com relação a tudo, mas, felizmente, ela é burra. Ela ruge contra tudo que está aí, mas ela não compreende quase nada do que acontece. Ela grita, mas não sabe, ela reclama, mas não propõe. Algum dos emails que você recebeu propunha alguma coisa que fosse utilizável por um cidadão de bem, ou não passava de denuncias tão malucas quanto improvadas?

A direita, estimado leitor, não está nem aí para as provas, ou para a razão, pois ela não precisa de nada disso para viver. Para ela, basta a raiva. Algum email que você recebeu era raivoso?

A direita se faz de boazinha e carola, e a gente diz, óoooo, que terna! Aí vem a eleição, e a maioria do povo não se mostra simpática a ela, e ela mostra o seu real rosto, em sua sublime feiúra. Sabe criança que se faz de boazinha, aí você diz não e ela abre o berreiro? Você recebeu algum email com berreiro recentemente?

A direita sabe de ódio de classe, estimados leitores. Ela não entende, não aceita, não imagina um mundo de iguais. Ela diz que o Bolsa Família está destruindo a sociedade porque agora os mais pobres preferem não fazer nada a trabalhar nas casas deles. Você não recebeu mail sobre isso? Sobre os pobres preguiçosos que não querem mais trabalhar por migalha? Ela suportou o Lula porque não havia muita escolha e ele era espero demais para ela, mas agora quer vingança. Você recebeu emails pedindo vingança, estimado leitor?

Alguns de vocês talvez achem que o nome do sistema define se ele é esquerda ou direita. Basta o partido ter social no nome para ser de esquerda. E portanto, nenhum partido é de direita, já que nenhum se anuncia assim. Não é o nome, estimados leitor, mas a atitude. Alguém aí duvida que o tal de DEM é de direita? Mas ele não se anuncia assim, não é?

Assim, estimados leitores, e para simplificar as coisas, o Chavez é de direita, assim como o Bibi. O odioso Ahmadinejad e seus aitatolás são pra lá de Bagdá, se o assunto é direitismo. Cuba é de direita, a Rússia idem. A Europa Ocidental é toda de esquerda, em matizes que variam em torno da clássica social-democracia, o Brasil tem sido governado de um jeito de centro esquerda, a Argentina é peronista, o que quer dizer que não há como saber de que lado ela fica. Os Estados Unidos são de direita, mesmo que o Obama não seja ou goste disso, e a direita deles é ainda muito, mais muito cheia de raiva do que a nossa, até agora.

Uma colunista foi demitida de um grande jornal de São Paulo simplesmente por escrever uma coluna que discordava da linha editorial do jornal, que é de direita. A imprensa brasileira, toda ela, não se assume de direita e diz que essas coisas não existem e que a imprensa é livre.

A colunista de um grande jornal de direita acaba de ser demitida por ser livre. Quem não gosta de liberdade são eles. Quem não sabe o que fazer com ela, são eles. Quem inventou que eles eram democratas, foram eles. Não são, deixaram isso claro, e, portanto, colocaram à mostra os seus mesmos e enormes dentes.

A direita, estimados leitores, existe e ruge. O que você acha disso diz muito do que você é, do que o seu voto vai ser, e do que esse país vai se tornar.


Marcelo é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

....as cidades estão mais limpas e as eleições mais tristes....

Excesso de disciplina aumenta apatia eleitoral. Legislação atual chega ao cúmulo de proibir "aglomeração de pessoas portando vestuário padronizado" ou qualquer "manifestação coletiva". Falta de militância faz eleitor depender demais da mídia.






Em razão da ditadura militar, o Brasil ficou quase três décadas sem eleições presidenciais. Lembro-me de ter votado para presidente pela primeira vez, depois da frustrante derrota das Diretas-Já, somente ao completar 23 anos.

Eleição, depois de tanto tempo de repressão, era sinônimo de disputa, mas, sobretudo, de festa. E como sempre ocorre nestes momentos, também de um pouco de bagunça e sujeira.

Hoje, não. Votamos sob o signo das cidades limpas. Limpas e quietas.

A disciplina eleitoral, imposta pelo TSE por resoluções e depois pela transformação destas em leis draconianas, expulsou a sujeira, a bagunça e a confusão da eleição. Mas não terá expulsado também a festa?

Não existe mais a "boca de urna", as propagandas de última hora, a "força da militância". Os cabos eleitorais desapareceram - e em seu lugar restaram, sintomaticamente, silenciosos cavaletes.

A festa da eleição, o revoar de bandeiras, as camisetas, os adesivos, os gritos e buzinaços não existem mais. Tornaram-se coisas do passado e é bem possível que boa parte da população agradeça muito a Justiça por isso.

Como quer o tribunal eleitoral, a eleição se faz pela marca da eficiência. É respeitosa, silenciosa, limpa. É rápida, porém incolor e inodora.

A última reforma eleitoral chegou a proibir expressamente a "aglomeração de pessoas portando vestuário padronizado" no dia do pleito. Ou qualquer outra ação que pudesse caracterizar "manifestação coletiva".

Quem diria que precisaríamos de mais duas décadas de eleições para voltar a reprimir as "manifestações coletivas"?

É verdade que a lei ainda permite no dia da votação a "manifestação individual e silenciosa" da preferência do eleitor. Podemos votar e até comemorar, mas como se estivéssemos em um templo.

As restrições à propaganda podem servir de estímulo à ordem, à tranqüilidade e evitar que eleitores sejam pressionados por militantes mais aguerridos.

Mas os excessos das limitações também contribuem para o esvaziamento da eleição como manifestação política que é. Impedem que os movimentos ganhem as ruas e avenidas e sejam sentidos pela população. Evitam, em suma, que o processo tenha calor, interesse, motivação.

Uma eleição asséptica, limpa, solene e pacata, que restringe manifestações e movimentos, aumenta enormemente o efeito da mídia sobre o eleitor.

Não há mais o sentimento das ruas. Os jornais se responsabilizam por nos trazer o que pensam nossos vizinhos através das pesquisas e o valor das suas próprias manchetes nem tão silenciosas assim passa a ser sensivelmente mais determinante.

De regulação em regulação, em breve estará na hora de reivindicarmos novamente a liberdade de expressão, individual ou coletivamente, silenciosamente ou não.

Proibir manifestações, atrelar a atuação pública a um rígido calendário eleitoral, circunscrever datas, locais e formas para a política são todos instrumentos que contribuem enormemente para uma organização burocrática do pleito.

Mas na política forma e conteúdo se misturam. Querer preservar o calor da disputa a rígidos esquadros acaba por amortecer o vigor da eleição - que o digam os apáticos debates cercados de regras por todos os lados. São cada vez menos interessantes.

A Justiça Eleitoral é extremamente eficiente para comandar uma eleição sem fraudes e deve ser elogiada por isso.

Mas não podemos depender exclusivamente de seus critérios para dar vigor aos embates políticos próprios de uma eleição. A exigência burocrática de vários documentos para votar, que partiu de recomendações da Justiça Eleitoral, é um exemplo eloqüente. Causou um ligeiro aumento na abstenção neste ano, e se tivesse sido mantido integralmente, poderia ter influenciado o resultado de forma mais decisiva.

Eleições livres e justas são a pedra de toque do regime democrático. É importante que sejam tranqüilas, sem abusos nem violências. Mas é preciso ter sempre em conta os riscos da apatia que o excesso de ordem nos traz.

O desinteresse pela política fragiliza os partidos e torna o eleitor dependente dos estímulos da mídia, contribuindo fortemente para a eleição de rostos que são conhecidos e populares apenas pelas lentes da televisão.

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