"ser de esquerda hoje é preferir a desordem à injustiça"
(Bernard Henry-Lévi, filósofo francês)



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

....a sombra dos dentes....

Mas na escuridão da sala de reconhecimento, diante de outros réus e de outras vítimas, confesso que a sombra dos dentes ainda me aturde.








A sombra dos dentes



Dona Matilde entrou na sala sorridente. Nem tanto pela audiência, suponho. Mas porque trazia a tiracolo seu filho recém-formado. Ela pediu licença para que ele pudesse acompanhá-la. Mas não fez isso por que era necessário. Fez porque queria nos apresentar o novo doutor.

-É meu filho, excelência. Advogado. Ele pode assistir?

Ela era um orgulho só. Ser ouvida como testemunha em uma audiência criminal não é nenhum grande acontecimento, digno de nota, ou de júbilo. Mas ver o filho na sala do juiz, terno, gravata e olhar sério e atento, já quase como um advogado, era muita coisa para ela.

Ao vê-la, apenas sorri. Sei que minha mãe faria o mesmo.

Dona Matilde foi calma e precisa –a presença de um advogado era absolutamente desnecessária. Não teve pressa, tampouco inibição. Narrou com detalhes a situação constrangedora a que fora submetida um mês e meio antes. Ameaçada com uma arma, ou o que lhe pareceu ser uma, foi levada por três rapazes refém dentro de seu próprio carro, escondida encolhida entre os bancos. Forneceu a senha. O cartão do banco lhe tiraram à força. Depois de quase uma hora, sem conseguir visualizar seu destino ou as paradas que eles fizeram no caminho, recebe a última ordem: fique aí quietinha, dentro do carro, madame, que estamos de butuca. O assaltante a seu lado, sentado, levanta-se do banco, abre e fecha a porta do carro, brandindo a arma e repete: já voltamos, se gritar, morreu, já foi.

Dona Matilde ouve com medo e presta atenção na boca que se mexe produzindo essas palavras rudes, ou outras de mesmo teor, que de tão ameaçadoras atende sem pestanejar. E lá fica por quase outra hora. No silêncio prolongado, levanta-se aos poucos. Ergue as costas que já lhe doem e quase não suporta o corpo frágil. Tenta, enfim, reconhecer onde está. Um conjunto habitacional, pessoas que correm de um lado a outro. Ninguém parece prestar atenção nela. Aos poucos se recompõe, quando chega a polícia. Com medo de que os ladrões ainda estejam por perto, com medo que eles a vejam falando com os PMs, com medo de um tiroteio, enfim, fica estática e sem voz, quando lhe perguntam o que aconteceu.

Com o tempo, recobra o juízo e conta. Provavelmente, sem a mesma tranqüilidade com que narrou os fatos para mim. Tamanha foi a precisão de seu relato na audiência, que quase não foram necessárias outras perguntas e nos dirigimos, então, para o reconhecimento.

O réu foi colocado numa sala e nós, eu, o promotor, o advogado de defesa e a vítima, ficamos em outra, separados por uma janela de vidro duplo de transparências distintas. Nossa sala fica totalmente escura. A outra, de luzes acesas. Assim podemos ver com clareza quem está diante de nós.

Ele, o réu, vê apenas a sua própria imagem no vidro que se faz espelho. Isso, em geral, é suficiente para aplacar o receio das vítimas mais temerosas. No caso de Dona Matilde, uma deferência a mais. Permito que seu filho advogado possa assistir o ato a seu lado.

Dona Matilde olhou para a pessoa que estava a sua frente, de forma pensativa. Franziu os olhos, se aproximou do vidro e suspirou por mais de uma vez.

-Doutor, parece ele sim. Altura, cor da pele, tipo físico. Mas, sabe, eu queria ter certeza...

-Se a senhora não tem certeza...

Ela retorna e olha de novo.

-Tem uma coisa que eu me lembro muito bem, doutor. Da sua boca. Sabe, eu olhei muito para ela, na posição que eu estava. Os dentes, doutor....

Mais um minuto de silêncio e contemplação e ela prossegue: Eu percebi, doutor, que ele tinha uma dentição diferente, não sei, ...estranha, escura. Parecia podre.

Diante da dúvida inicial de dona Matilde, eu já estava prestes a abrir a porta e voltar para nossa sala, com todo mundo. Fazer constar que ela não havia reconhecido o réu e retomar a audiência do ponto em que havíamos parado.

Mas ao insistir em falar na dentição do réu, ela o fez com um olhar suplicante. Estava insatisfeita com sua própria hesitação. Eu acedi. Fiz com que a escrevente fosse à outra sala para pedir que o réu abrisse a boca. Pelo sim, pelo não, era possível espancar pelo menos essa dúvida.

Mas quando ele abriu a boca, não restaram dúvidas. Até eu o reconheci.

Um arrepio percorreu meu corpo e dona Matilde, sem tirar nem por, simplesmente desabou. Ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo. Ele podia ter se negado, mas não o fez. Ao contrário, abriu os lábios com tamanho vigor, arreganhando os dentes de uma forma para lá de assustadora.

Os dentes estavam realmente podres, como Matilde descrevera, mas naquele exato momento só pareciam mesmo afiados.

Enquanto dona Matilde era segura nos braços, de forma trôpega pelo filho, balbuciou palavras que nos afligiram ainda mais. Anos depois, devo admitir que um ou outro detalhe certamente me escapou e a situação pode não ter sido exatamente esta, como lhes conto. A memória é sempre traiçoeira e não raro somos tentados a cobrir os espaços vazios com nossas próprias lembranças ou impressões. Mas o que ela nos disse no interior da sala escura, não foi possível esquecer. Nem uma só palavra:

- Esses dentes, doutor. São estes, meu deus do céu. Eu sonho com eles todas as noites. Nem um dia sequer consegui tirá-los da minha cabeça.

Do fundo da alma, agradeci que dona Matilde tivesse trazido seu filho advogado. Mais do que a força de segurar sua mãe com mãos trêmulas, foi sua presença, ali ao lado, conhecida e carinhosa, que fez dona Matilde lentamente se acalmar. Eles se abraçaram e o filho a trouxe de volta à sala de audiências, segurando em sua mão, enquanto dizia ao pé do ouvido, palavras provavelmente reconfortantes.

Eu nunca entendi muito bem porque o réu se entregou daquela forma. Desespero, frustração, abandono, raiva, culpa. Indiferença, quem sabe, ou resignação quanto ao futuro.

Mas na escuridão da sala de reconhecimento, diante de outros réus e de outras vítimas, confesso que a sombra dos dentes ainda me aturde.

Em certos momentos, imagino que o réu abrirá sua boca, arreganhando seus dentes quando a gente menos espera. Em outros, monitoro as vítimas com o canto do olho e as mantenho a curta distância, na espreita de alguém que desabe...

Um comentário:

Anônimo disse...

Maravilhoso o texto. Muito bom mesmo. E olhe que sou uma leitora voraz e exigente. Não deixe nunca de escrever.
Abs
Lais