"ser de esquerda hoje é preferir a desordem à injustiça"
(Bernard Henry-Lévi, filósofo francês)



terça-feira, 19 de julho de 2011

....roubar para morrer....

Será esse um motivo suficiente para viver?










Roubar para morrer





Os crimes patrimoniais são em regra condutas de soma zero.

A uma vantagem obtida pelo agente, corresponde necessariamente um prejuízo para a vítima.

Mas nem sempre é assim.

Às vezes, pode ser bem pior.

Seu Joel acordou cedo para fazer um serviço de marcenaria. No meio do caminho, recebeu a informação que o trabalho estava adiado. Parou para tomar um café. Quando desceu do veículo, foi abordado por um garoto que lhe pareceu transtornado. Ele apenas grunhia e mal dava para entender o que falava. Joel se afastou rapidamente e só de longe reconheceu o nóia, que viu crescer no bairro.

Na saída da padaria, Zezinho, o nóia, está lá esperando e o aborda novamente. Não fala nada desta vez, mas avança de forma abrupta sobre a chave do carro e a arrebata da mão de Joel.

O marceneiro fica desnorteado. Como está com o alarme opta por não correr atrás do rapaz. Mas suas mãos tremem de nervoso e ele acaba por derrubar o controle remoto que corta o combustível no chão, antes que consiga acioná-lo. Assiste, assim, passivamente o garoto entrar no seu carro, dar a partida e fugir com ele.

A acusação contra Zezinho é de roubo.

Mas apesar da perda, é a própria vítima que desmente a agressão estampada na denúncia: ele puxou a chave da minha mão, doutor, mas não me bateu, em nenhum momento.

Não estava armado e não fez menção de trazer uma arma escondida.

Joel conta, afinal, que também não ficou atemorizado pelo rapaz. Apenas atônito.

Até aí, olhares que troquei com o promotor já prenunciavam a desclassificação da acusação para furto.

Mas o drama não tinha nem começado.

O pior, para ambos, veio depois.

Zezinho saiu dirigindo o veículo, mas não por muito tempo.

Em menos de cinco minutos, capotou e detonou o automóvel do marceneiro. Perda total, diria a seguradora, se Joel tivesse dinheiro para contratá-la.

A adrenalina da fuga, a velocidade da direção, a ação do entorpecente, quem sabe se não até a imperícia –o garoto talvez nem soubesse dirigir direito.

As especulações vêm e se vão com o vento. Sempre é preciso chegar ao fim para entender o que se passou.

-Ele queria se matar, doutor. Disse ao policial que lhe socorreu: “Deixa eu morrer, deixa eu morrer”. Foi por isso que pegou o carro e saiu como um alucinado...

Mais do que raivoso, Joel estava resignado. O senhor imagina como eu vou trabalhar sem carreto?

Zezinho não morreu.

Não teria morrido, nem que o policial deixasse. Apesar da dimensão do acidente, que destruiu o automóvel, ele mesmo teve apenas ferimentos leves e foi levado preso, tão logo deixou o Pronto Socorro.

Na audiência, estava cabisbaixo e constrangido, mas possivelmente aliviado. Estava mais vivo do que antes de pegar a chave do carro do marceneiro.

-Eu conheço o garoto do bairro, doutor, desde que ele era pequeno -Joel olha de soslaio, reconhece Zezinho formalmente e se levanta, após assinar o termo da audiência, para sair da sala.

O advogado sugere, o promotor concorda e eu homologo uma última chance para tentar trazer o caso de volta à soma zero.

O processo é suspenso e Zezinho ganha dois anos, em liberdade, para pagar os dez mil reais do prejuízo e evitar uma condenação.

Joel é comunicado do acordo quando já está de saindo da sala. Balança a cabeça em anuência, mas prossegue sua marcha como se não fosse com ele. Sem raiva, mas sem qualquer esperança.

Zezinho nasceu de novo. Enxuga a última de suas lágrimas e reconhece em voz alta sua dívida.

Mas será esse um motivo suficiente para viver?

2 comentários:

Marilia Oliveira e Telles disse...

Sou sua fã,Marcelo! Quem mandou o link foi a Giane Alvares, outra fã. Inté, Marilia.

Anônimo disse...

Não é à toa que Marcelo Semer é tido como um juiz-poeta ! Só um poeta para acreditar que um moleque usuário de drogas vai conseguir arrumar um emprego honesto e, PASMEM, em dois anos conseguir juntar DEZ MIL REAIS para ressarcir a vítima ! Gostaria que Vossa Excelência publicasse em seu blog, daqui a dois anos, se Zezinho conseguiu cumprir o acordo ! Mas valeu as boas intenções, viu doutor ?