Reconstruí seu perfil pelas versões que pareciam fazer referência a várias pessoas. Toshiro era múltiplo

Toshiro, o réu que eu não conheci
Se tem um réu que eu fiquei com vontade de conhecer pessoalmente, era Toshiro.
Ele foi soldado e empresário. Dekassegui numa indústria de alta tecnologia, assistente de pastor. E tantas outras coisas...
Mas quando eu lhe fiz chegar a citação para responder ao processo, não fez nenhuma questão de aparecer. Terminou o julgamento tão distante como o começara e acabou com um mandado de prisão à sua procura.
As fotos que existiam nos autos certamente não lhe faziam justiça.
Toshiro não era alto nem era forte. E para meu critério, não tinha assim um traço peculiar de charme ou sensualidade. Mas as pessoas que estavam a seu lado, isso posso dizer, pareciam sempre felizes.
Sedutor na conversa, não lhe faltavam histórias que comoviam e convenciam todos a seu redor.
Fui reconstruindo seu perfil pelos fragmentos dos relatos que me foram trazidos, versões entrecortadas que pareciam fazer referência a várias pessoas. Toshiro era múltiplo.
Gerson foi seu ponta-de-lança no empreendimento que colocou o bairro em polvorosa, uma representação de fábrica de escovas japonesas.
“Ele fez uma espécie de seleção, doutor, e eu, veja só, eu, fui escolhido para ser o seu diretor. Era minha responsabilidade encontrar possíveis parceiros e pessoas que estavam dispostas a um novo desafio. Na época, eu fazia alguns trabalhos no computador para conhecidos do bairro. O senhor acha que eu podia desperdiçar uma oportunidade como essa?”
Gerson não desperdiçou uma oportunidade como aquela e inclusive vendeu o computador, seu ganha-pão, para entregar a primeira parcela do investimento a Toshiro, tão logo foi admitido como sócio da futura empresa. Brindaram ao futuro na ocasião.
O pastor Leonardo o abrigou como um membro da família.
“Ele veio recomendado por um irmão de Igreja, com ótimas referências. Precisava de um lugar para fazer suas reuniões e nosso salão tinha espaço de sobra. Depois que ele chegou, muitas pessoas se aproximaram dos cultos. Ele tinha verve, tinha talento. Era bonito ver como conseguia agregar tanta gente e injetar esperança em jovens e pais de família.”
Por insistência da esposa, Raimunda, o pastor ainda o pôs morando na sua própria casa.
“Eu ouvi, doutor, o seu testemunho de fé. Foi lindo, uma coisa impressionante. Ele se abriu com todos nós e contou o crime bárbaro que sua filha tinha sido vítima. Um estupro terrível que o marcara muito. A força que ele tinha para continuar vivendo era um belíssimo exemplo para todos nós. Eu disse a Leonardo que fazia questão que ele ficasse conosco, enquanto resolvia suas pendências no Japão”.
Wagner, o dono de um pequeno restaurante vizinho à Igreja, foi ainda além.
“Ele me convenceu que a representação que estava montando ia ser tão boa para o bairro que o número de refeições que eu vendia ia aumentar muito. Por isso, não hesitei quando me pedia para fazer os lanches que servia nas reuniões. A gente se sentia participando de um momento muito especial, uma coisa mesmo importante. Fiquei um pouco em dúvida quando ele me pediu dinheiro emprestado. Disse que o negócio estava crescendo e era preciso fazer uma reunião em um hotel. Bom, eu acabei emprestando, depois que ele mostrou o extrato de sua conta corrente em um banco japonês. Não dava para entender muito bem o que dizia o papel, naquelas letras estranhas. Eu senti que ele falava a verdade”.
Mas ninguém confiou nele tanto quanto Maria do Rosário, que lhe entregou mais, muito mais do que dinheiro.
“Eu liguei para meu ex-namorado, que estava morando no Japão, dekassegui o senhor sabe, né? Aí atendeu ele e disse que meu namorado tinha se mudado, sem deixar qualquer recado para mim. Eu estava esperando a volta dele e de repente me vi sem notícias e sem chão. Toshiro pediu para que eu conversasse um pouco com ele porque estava muito sozinho. Com o tempo nós fomos nos falando, trocando mensagens e agrados. Ele me contou coisas horríveis do meu ex-namorado e prometeu que me daria uma ótima notícia quando voltasse ao Brasil. Eu estava tão magoada e ele me deixou tão feliz, doutor, que eu acabei ajudando ele a voltar. Disse que precisava só de dois mil...”
O futuro empreendimento ia de vento em popa enchendo de esperanças pessoas humildes que se sentiam à beira de um negócio que podia mudar suas vidas. Ao mesmo tempo, em outro canto da cidade, Maria do Rosário tentava recomeçar a sua com uma pessoa simples, honesta, educada e, acima de tudo, respeitadora.
“O senhor não pode imaginar doutor, nem um beijo ele me deu. Disse que sua educação rígida não permitia, antes que estivéssemos formalmente comprometidos. Ele não me queria para uma aventura qualquer, queria para casar mesmo”.
Quando as histórias se juntaram, tudo isso virou um enredo policial.
Gerson ficou cismado que em suas procuras pelo site da empresa no Brasil, não achava uma só referência a representações. Não entrou em contato com eles, com medo de por tudo a perder. Mas contou a história para um amigo que trabalhava na promotoria. E que achou tudo muito suspeito.
Incomodado, Gerson acabou por dividir parte de suas desconfianças justamente com Toshiro. Disse que a empresa estava demorando demais para sair e ele nem mesmo tinha um documento em suas mãos com o dinheiro que antecipou.
Toshiro foi firme, seguro e dobrou o futuro diretor, como era de se esperar de um presidente que se preze. Disse que precisava de alguém em quem pudesse confiar, que soubesse pensar grande e que estivesse disposto a enfrentar desafios e não a se borrar de medo. E se ele quisesse, podia parar por ali mesmo sua cooperação que lhe devolveria todo o dinheiro.
Gerson recuou com medo de estragar a grande chance da vida. Mal sabia que o estrago já estava feito. Toshiro concluiu que era hora de uma estratégica viagem, como comunicou a todos em uma reunião. Na volta, que o aguardassem com festa. Tudo estará pronto, disse vendendo as últimas esperanças.
E foi esperançosa que Maria do Rosário cedeu também pela última vez, comprando nada menos do que um carro para que Toshiro pudesse fazer suas viagens com mais tranqüilidade, aquelas que ele prometeu parar assim que eles se casassem.
Foi com este carro que Toshiro colocou o pé na estrada, levando consigo as esperanças de uma centena de moradores, a fé do pastor, as refeições de Wagner, o dinheiro e o tempo de Gerson e o amor mais uma vez ferido de Maria do Rosário.
A capacidade de fazer com que tantos acreditassem nele por tanto tempo era realmente impressionante. De uma experiência frustrada no Japão, ele conseguira dinheiro para voltar ao Brasil, casa, comida, roupa lavada, prestígio, respeito, consideração e um carro zero quilômetro, por meio do qual acabou sendo encontrado, abrindo as chances de um processo quase nada reparador.
A diligente promotora com raiva pelo desprezo absoluto ao carinho de Rosário (nem um beijo ele teve coragem de dar, ela dizia espumando) descobriu ainda outro processo, em que o mesmo Toshiro se apresentava como veterano de guerra e dono de empresa.
Ele foi de fato a mais perfeita tradução de estelionatário com que topei pela frente. Um astro da palavra.
Pensando bem, acho que foi até mais seguro não o conhecer pessoalmente...

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