"ser de esquerda hoje é preferir a desordem à injustiça"
(Bernard Henry-Lévi, filósofo francês)



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

....dez temas para entender 2011....





Temas enfrentados no Blog Sem Juízo traduzem um contraditório 2011






Em 2011, o Blog Sem Juízo comemorou seu primeiro aniversário e chegou a cem mil visitas. Criou as seções: “Prateleira”, “Fazendo Justiça” e “Cultura Sem Juízo”, abertas à contribuição dos leitores, e passou a publicar as “Crônicas do Crime”, que pretendo em breve transformar em livro.

Por intermédio de meus artigos e de artigos de outros autores que aqui postei, foi possível passear entre temas pelos quais se pode tentar compreender este contraditório 2011. Desalento generalizado com as conseqüências da crise e seus reflexos mundo afora compartilharam espaço com o surgimento de novas interações e mobilizações; do movimento dos indignados e a crítica à representação política ao liminar da reinvenção da democracia; da ascensão social no país, à dura convivência com o recrudescimento do preconceito; da emancipação à redescoberta da moderna escravatura. Os dilemas do Judiciário anacrônico, corporativista e elitista, com credibilidade inversamente proporcional à sua necessidade na democracia. Um pouco de tudo desses confusos dias, em um retrato multifacetado de um 2011 que estamos deixamos para trás.



1-) Menos orgulho mais preconceito


O ano começou com a posse de nossa primeira presidenta da República, Dilma Roussef. Já na cerimônia de posse, enquanto ela de forma inédita passava em revista aos militares e instava a coragem como seu principal atributo, milhares de comentários levavam a jovem esposa do vice-presidente aos trending topics das redes sociais. Afinal, mulher jovem e bonita, ao lado de um político idoso só poderia ter um significado. “Superar estereótipos é o primeiro passo para romper preconceitos”, escrevi na ocasião.

Mas a maledicência com Marcela Temer ia ser muito pouco perto da explosão da homofobia, xenofobia e racismo dos últimos anos. A ascensão social e gradativa incorporação de direitos civis (cotas raciais, reconhecimento de direitos das relações homoafetivas, vitória de um nordestino na política) detonaram ondas de preconceitos pelo país afora. Críticas a nordestinos e negros nas redes sociais, agressões a homossexuais nas ruas, piadas racistas e um enorme espaço de televisão a um deputado reconhecidamente homofóbico.

O assunto tomou as colunas do Blog Sem Juízo, com “Preconceito descortina país pouco cordial” e “Cruzada religiosa combate direitos civis dos gays”.

Diante desse inusitado panorama, defendemos a criminalização da homofobia (“Homofobia também é racismo”) e apoiamos a decisão do STF que reconheceu a união estável homoafetiva, abrindo caminho para a sentença do “Primeiro casamento gay”.



2-) Dos indignos aos indignados


Depois da libertária Primavera Árabe e dos movimentos espontâneos que correram o mundo, de Cairo a Santiago, de Londres a NYC, afrontando de um lado o expressivo poder econômico e de outro a representação política a ele submetido, concluímos que “Os indignados vão virar o planeta de cabeça para baixo”.

Ainda não se sabe quais serão os reflexos da volta às ruas e da tomadas de praças por todos os cantos, com multidões alheias às disputas eleitorais. O movimento, que culminou com o “Ocupa Wall Street” é mais um ponto de partida do que porto de chegada e tem tudo para nos fazer refletir sobre o papel dos governos: secundar o 1% no topo da pirâmide ou dedicar seus esforços aos 99% restantes? Revoluções ou pilares de uma nova democracia, quem ignorar o que o mundo vive, pode chegar tarde demais para compreender.


3-) O mundo na rede


Facebook e twitter deixaram de ser meros aplicativos destinados a exercitar o narcisismo e aprofundar as distâncias entre os jovens. Se existe uma grande novidade de 2011, foi o protagonismo das redes sociais em movimentos populares, como aqueles que levaram às revoltas no mundo árabe e as mobilizações dos indignados por vários continentes. A possibilidade de manifestações sem líderes, facilitada pelo alto nível de conectividade, e o caráter viral que viabiliza rápidas disseminações de informação e protestos, mostraram a importância do direito à comunicação (“Direito à comunicação e declaração cibernética”).

Ao mesmo tempo em que as redes sociais exibiram sua força (“Redes sociais e as novas formas de democracia”), mecanismos de controle começam a ser levantados. “Internet balança ditaduras, mas sofre ameaças” discutiu a necessidade de estabelecer um direito à comunicação e a questão sobre “Liberdade x tutela na web” foi tema de exposição entre os blogueiros progressistas.


4-) Os juízes e a democracia


2011 foi um ano fértil para o Judiciário. Fértil, porém sofrido. De altos e baixos, a Justiça pôde, sobretudo, iniciar uma discussão acerca de seu papel na construção, ou, em certos casos, na interdição à democracia. A condução do poder, o anacronismo de suas oligarquias (“Quem tem medo da democracia nos tribunais?”), o elitismo de suas decisões (marcado em “Pobres lotam cadeias, ricos entopem tribunais”), e o corporativismo de sua proteção ficaram expostos como nunca.

É ruim para a credibilidade da Justiça (como avaliei em “Cabo de guerra destroça credibilidade na Justiça”, sobre a contenda entre CNJ e STF, também abordada em “Judiciário é desigual na punição a juízes”), mas talvez necessário para compreendermos nosso papel.

2010 havia terminado com a melancólica indecisão sobre o Ficha Limpa (ele mesmo um projeto que eleva perigosamente o poder dos juízes, como advertido em “O que os juízes devem e o que não devem decidir”) e iniciou com o desgaste do caso Battisti, sobretudo pela ânsia de metade de seus integrantes de se sobrepor, pela contrariedade, à decisão de governo pelo asilo e extradição. “Luta de poder envolve caso Battisti” analisou a questão.

Mas poucos casos foram tão evidentes quanto às contradições do papel do juiz nas proibições à Marcha da Maconha e sua posterior liberação por decisão do STF, prestigiando, de forma unânime, o constitucional direito à manifestação. Que juiz queremos na democracia, o garantidor de direitos ou o agente censor, tema enfrentado em “STF deve assegurar direito à manifestação”.

Discutimos, ainda, a liberdade de expressão dos juízes, em face de exceção de suspeição, com fundo ideológico, suscitada por manifestações do juiz carioca Rubens Casara contra ilegalidades na ocupação de morros pela polícia no Rio de Janeiro ("A liberdade de expressão dos juízes")

2011 marcou o aniversário de 20 anos da Associação Juízes para a Democracia, registrados em um artigo meu (“Juízes para a democracia: 20 anos dedicados ao garantismo”) e um de Marcio Sotelo Felippe (“Há juízes em Berlim"), além da transcrição do discurso do presidente José Henrique Torres (“AJD, 20 anos para a democracia”). Foi também o ano em que a associação sofreu seu mais forte ataque da grande mídia, em duas frentes da revista Veja, com base em uma nota que criticava o ingresso da polícia no campus da USP. “Veja quer calar a democracia” retratou minha resposta aos ataques.


5-) O novo reacionário e o politicamente incorreto


2011 também foi marcado pelo espaço concedido ao novo reacionário, nas televisões, jornais e programas de humor. O rebelde sem causa mira supostamente na libertação do “politicamente correto” como subterfúgio para dilacerar o conceito da dignidade humana e sua tutela. Tudo vale, em nome dessa nova liberdade às avessas. A expressão foi usada como arma, a igualdade criticada como amarra, a banalização da violência verbal por intermédio dos colunistas do insulto é a moderna forma de plantar a semente do ódio. “O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo” tratou de identificá-los; “Expor preconceito não é coragem, mas covardia” repeliu o discurso bolsonaro que inverte os parâmetros da honradez. E, após a tragédia nórdica, explicitamos: ”Noruega ensina que racismo não pode ser visto como folclore”.


6-) Defendendo os defensores


“Quem tem medo da defensoria pública?”, indagou por que governos e políticos receavam tanto criar ou estruturar o órgão consagrado pela CF para a assistência jurídica à população carente. Pobre não merece defesa ou é melhor não ser educado em direitos? A luta pela criação da Defensoria Pública em SC foi registrado em “Cresce pressão para criação da última defensoria” até o momento sem sucesso. E, por fim, reproduzindo artigo da FSP, “Descaso com defensoria: o barato que sai caro”.

A luta pela defensoria é, sobretudo, uma luta pela apropriação popular do Estado, que vai se revelar em tantas outras dimensões que apontam o alheamento do povo como destinatário das políticas, como em “Euforia da Copa ignora moradia popular” e “Desastre revela urgência da reforma urbana”.

No fundo, por mais avanços que podemos constatar, ainda cabe a pergunta: porque o Estado não serve a quem dele mais necessita?


7-) Tortura e violência


2010 acabou com a marca da decisão do STF de sepultar o julgamento dos crimes da ditadura (“Um perdão cordial”), mas 2011 trouxe novo alento com a decisão da Corte Interamericana dos Direitos Humanos quanto à imprescindibilidade dos julgamentos. A decisão já era esperada, como escrevemos (“Corte Interamericana pode romper silêncio sobre crimes da ditadura”), e foi registrada com júbilo (“Decisão da OEA abriu caminho para julgar tortura”), inclusive com o belo voto em separado de Roberto Caldas (“O juiz brasileiro na Corte Interamericana”).

No entanto, nem o governo nem a Justiça deram bola à decisão, mantendo o caminho da omissão, que nos legou sérias conseqüências. A complacência com a tortura é um dos principais ingredientes para a permanência até os dias de hoje da violência policial (“Complacência com tortura estimula violência policial”), sendo o caso mais contundente no ano, o assassinato da juíza Patrícia Acioli atribuído a policiais militares flagrados na simulação de autos de resistência. O assunto foi abordado no meu artigo “Honrar Patrícia é não ser conivente com a violência policial” e no do juiz carioca João Batista Damasceno: “O assassinato da juíza”, campeão das leituras no ano.


8-) A força da grana


O esvaziamento do Estado e a falta de controle provocaram a mais intensa crise dos últimos tempos, na qual ainda estamos imersos e sem resultado à vista. Por mais incrível que possa parecer, quem criou a crise se arroga na condição de fornecer subsídios para enfrentá-la. Não é a toa que os prejuízos das grandes instituições financeiras acabam por ser suportados por demissões e cortes de aposentados. A capacidade do Estado de tutelar e impor sanções aos donos do poder é cada vez menor. Pela recuperação do poder do estado de tutelar o poder financeiro e exercer o seu poder de polícia, ficaram marcados os textos “Fifa quer submeter país e esporte a negócios” e “Consumidor, um ser desprezível”. O alheamento da sociedade em face das violências produzidas nas relações de consumo vem registrado em “Trabalho escravo é uma verdade inconveniente”.


9-) Drogas e guerras


Em 2011, volta à baila o tema da descriminalização dos entorpecentes, inclusive com o filme Quebrando o Tabu, estrelado entre outros pelo ex-presidente FHC. A questão já havia sido examinada no Sem Juízo, com o artigo “Fracasso da repressão reabre debate sobre descriminalização”.

Os inconvenientes da Guerra contra as Drogas ficaram ainda mais perceptíveis. Mesmo com o aguçamento da repressão, o volume de consumo tem aumentado, o tráfico ilícito também. O contato com o tráfico põe em risco à higidez da polícia e a escalada da violência, já encarada como luta urbana, não parece ter mais limites. Não bastasse isso, a política repressiva acabou fragilizando a relação polícia-cidadão, tão cara à democracia, como se viu na violência que impediu a Marcha da Maconha (“Repressão à Marcha da Maconha é nostalgia da ditadura”) e o conflito na USP (“Conflito na USP é maior do que maconha”). Raras são as políticas criminais que podem se dar ao luxo de conseguir tamanhos inconvenientes, tema da palestra no X Congresso Nacional dos Defensores Públicos (“Política Criminal, drogas e democracia”).


10-) Corrupção e Transparência


Muito se falou sobre corrupção em 2011. A grande imprensa se jactou da capacidade de derrubar ministros com divulgação de escândalos, embora tenha, ao final do ano, ocultado um livro-reportagem denúncia de ilícitos nas privatizações. Os erros da indignação seletiva e a necessidade de transformar criticas em institutos que permitam maior controle, foram abordados em “Financiamento privado e foro privilegiado preservam corrupção” e ainda “Lei de acesso é vacina contra corrupção” –neste último caso, a aprovação da lei de acesso foi saudada pela coincidência da promulgação na mesma data da Comissão da Verdade. Com todas as imperfeições da tíbia Comissão da Verdade, é preciso entender que as duas coisas se entrelaçam: conhecer a verdade sobre o passado é a melhor forma de não repetir os erros no futuro.

....cabo de guerra destroça credibilidade da Justiça....

Juízes são imprensados entre a pecha de corruptos e a forma como são tratados pela cúpula de um poder oligárquico





Por mais jurídicos que possam ser os argumentos, a arrogância suicida do corporativismo não é capaz de enxergar o profundo estrago que vem causando à credibilidade da Justiça.

A liminar concedida pelo ministro Marco Aurélio aos 45 minutos do segundo tempo transpareceu à sociedade como um abuso do poder de julgar.

A legalidade da competência do CNJ para os processos disciplinares estava para ser decidida em setembro pelo plenário, quando um bate-boca público entre o presidente do STF e a corregedora Eliana Calmon provocou seu adiamento. Diante do recesso de ambos os órgãos em janeiro, a liminar terá pouco mais do que um efeito simbólico - mas o simbolismo no caso é altamente destrutivo.

E não se pode dizer que a outra liminar, deferida pelo ministro Enrique Lewandowski, na noite da véspera do recesso, em um processo do qual sequer era relator, tenha suscitado menos controvérsia. O ministro foi acusado de ignorar um conflito de interesses, por ser beneficiário na forma de pagamento de crédito trabalhista, que estaria no âmago da fiscalização que sustou.

A boa aparência da mulher de César se foi, mas as lideranças das associações que representam os juízes ainda não se aperceberam disso. Nem do conflito que existe no seio da própria magistratura.

Os juízes acabaram imprensados entre a generalizada pecha de corruptos que lhes é erroneamente impingida e a forma como são tratados pela cúpula de um poder oligárquico.

Enquanto 99% dos juízes auferem um crédito trabalhista em centenas de parcelas por falta de verbas, nosso 1% obteve as facilidades de pagamento à vista, por motivos ou fundamentos ainda ignorados.

O manto que Eliana Calmon desvestiu, talvez até involuntariamente, mostra de forma aguda a desigualdade tradicional que marca o Judiciário, entre segredos, benefícios e decisões imperiais.

Episódios como esse na verdade não são raros.

Desembargadores recebem benefícios que não estão à altura dos juízes, alguns desembargadores recebem tratamento que não está ao alcance dos demais e assim por diante até os ministros, em castas sucessivas. Aos servidores do poder, no andar de baixo, sempre sobra o argumento da falta de disponibilidade orçamentária para conceder reajustes.

É evidente que o Conselho Nacional de Justiça deve ter competência para instaurar processos que não sejam abertos pelas corregedorias. O órgão foi criado para controle do Judiciário e não pode funcionar apenas como aporte subsidiário.

Se os ministros do STF não reconhecerem isso no texto da Constituição, não há dúvidas que ela será alterada para tornar o controle mais explícito.

Mas a defesa esganiçada do esvaziamento do poder disciplinar é nefasta por outros motivos. Nos tribunais, as corregedorias só funcionam para o andar de baixo. Os desembargadores não estão afetos a ela e as cúpulas jamais são investigadas.

No episódio em questão, é de se perguntar, se o erro de pagar a alguns de forma diferenciada partiu da presidência do Tribunal de Justiça, quem vai instaurar a investigação se não o próprio CNJ?

As antigas direções da AMB tinham uma interlocução mais realista com o Conselho. A entidade se opôs à instalação do órgão, a meu ver equivocadamente, mas em algumas medidas, como a proibição do nepotismo, agiu como parceira para viabilizá-lo.

A eleição do desembargador Calandra para a presidência da associação, coincidindo com a do próprio Peluso para comandar o STF, acabou por instalar um ânimo de confronto e uma agenda que é mais próxima da cúpula do que da base do Judiciário.

É certo que o destempero verbal de Eliana Calmon também contribui para o embate, mas o acirramento por parte dos juízes apenas a consolida na figura mítica da caçadora de corruptos e ainda lhe fornece o álibi para a não-identificação de nossas maçãs podres. Afinal, depois da varredura de tantas contas, qual foi o juiz 'vendedor de sentenças' que ela encontrou?

A política dos desembargadores também encontra resistência entre os juízes, que suportam no dia-a-dia o ônus da rejeição por decisões de que não foram responsáveis nem mesmo beneficiários.

Que o próprio CNJ aprenda com o episódio a valorizar a democracia interna, que nunca foi sua preocupação, e participar da ruptura dessa visão oligárquica ainda persistente nos tribunais e em muito responsável pelo elitismo na prórpia distribuição da justiça.

Não devemos nos esquecer, porém, que o enfraquecimento do Judiciário só interessa a quem detém poder e não a quem precisa recorrer a ele para conter a violência e a ganância daqueles que o oprimem.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

....reduzindo as ilusões a pó....

Artigo descreveu cultura e luta pela regularização fundiária da Favela do Moinho






(Foto UOL)



A Favela do Moinho foi consumida pelas chamas nesta última quinta-feira.

Em homenagem aos trabalhos sociais ligados à comunidade, publico o artigo que segue, escrito pela advogada Sabrina Durigon Marques, no começo de 2010, originalmente para o Centro Acadêmico 22 de Agosto.

Sabrina descreve a então novidade da inserção da Favela do Moinho no projeto “Ponto de Cultura”, do Ministério da Cultura, formatado pela Associação Raso da Catarina, e os esforços empreendidos pelo Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns – PUC/SP, que vem acompanhando juridicamente a comunidade desde 2006 na luta pela regularização fundiária da área.

A música de Cartola, que lhe serve de epígrafe, assume contornos ainda mais dramáticos com a tragédia.





A vida é o Moinho! , Sabrina Durigon Marques*




Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó



Foi com esse título que a Favela do Moinho foi contemplada com um Ponto de Cultura para os moradores da comunidade.

Transformando sonhos e ilusões em realidade, esse projeto, que foi enviado ao Ministério da Cultura pela Associação Raso da Catarina, visa a promover a inclusão sócio-cultural dos moradores do Moinho, favela localizada no centro da cidade de São Paulo, próxima à estação Marechal Deodoro do metrô, no bairro de Campos Elíseos, aonde desde 2008 a Associação vem desenvolvendo projetos culturais, juntamente com o Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns – PUC/SP, que acompanha juridicamente a comunidade desde 2006 na luta pela regularização fundiária da área.

O projeto “A Vida é o Moinho” pretende despertar o interesse dos moradores por ações culturais, utilizando-se das oficinas de malabarismo, de culturas afro-descendentes, capoeira, curso de culinária brasileira, apresentações de filmes no formato cineclube, além de iniciação à internet e desenvolvimento de textos e planilhas virtuais.

No desenvolvimento do trabalho no local, o Escritório Modelo, que conta com uma equipe sócio-jurídica, durante esses anos de atuação, pode perceber que a participação dos moradores sempre foi muito maior e mais ativa quando as informações sobre direitos e cidadania eram repassadas por meio de ações culturais propostas pela Associação de Moradores e promovidas juntamente com os parceiros.

Nesse sentido, o Ponto de Cultura visa a fortalecer também a relação entre a Associação de Moradores e as demais pessoas que vivem lá. E para garantir o envolvimento dos moradores, a escolha das oficinas ocorreu após várias reuniões realizadas com a comunidade local, buscando abranger as necessidades apontadas por ela.

Como a grande maioria deles tem como ofício a venda de materiais recicláveis, a oficina de reciclagem é de fundamental importância para a comunidade, que convive diariamente com certa quantidade de lixo espalhada pelas vielas da favela. A oficina de culinária se propõe a ensinar as técnicas de reaproveitamento dos alimentos, o que se faz extremamente importante devido às condições econômicas dessa população.

As demais oficinas, de malabarismo, capoeira e hip hop, pretendem proporcionar cultura e diversão aos moradores da comunidade, principalmente para envolver a juventude, grupo que está em grande número no Moinho.

Pretende-se enfatizar a importância da continuidade das atividades mesmo após a conclusão do projeto, mostrando que todas elas podem se tornar fontes de renda para a comunidade, o que será sugerido durante as oficinas, debates, discussões e reuniões e formando voluntários da própria comunidade para serem os novos oficineiros.

O Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns – PUC/SP atua junto à Favela do Moinho desde o ano de 2006, prestando assessoria jurídica com vistas a promover a regularização fundiária. Nesse sentido, foi proposta uma Ação de Usucapião Especial Urbana Coletiva, com base no Estatuto da Cidade (Lei 10.257/01), e a essa ação foi concedida uma tutela antecipada, medida que garante a moradia da população no local até o fim da ação, viabilizando a segurança da posse às 800 (oitocentas) famílias que lá residem.

Para que se garanta o êxito nesse processo, a estratégia jurídica deve ser acompanhada de um trabalho social, que prevê a participação da população como eixo central, que decide sobre os rumos da comunidade, garantindo a manutenção dos interesses e das prioridades dos moradores daquele local.

Nesse sentido, o projeto do Ponto de Cultura, promoverá um espaço de debates e de desenvolvimento de ações culturais, buscando potencializar a emancipação desse grupo, para que eles próprios possam buscar fontes alternativas de renda e desenvolver suas potencialidades, isso por meio da cultura.

Os cursos serão ministrados na sede da creche local, durante o período noturno das 18h às 22h, e os computadores com acesso à internet ficarão à disposição dos moradores, mesmo nos dias em que não houver aulas de computação. As oficinas terão início no próximo dia 08 de fevereiro de 2010.



*Sabrina Durigon Marques foi gestora de projetos sociais do escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns (PUC-SP) e atualmente trabalha no Ministério da Justiça

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

....consumidor, um ser desprezível....

Privatização tornou desabrigo dos consumidores mais agudo, porque empresas não montaram plataformas de atendimento compatíveis com volume dos clientes. Problemas pequenos superlotam justiça.






Sabe aquela história de o freguês tem sempre razão?

Acabou.

Agradecemos a sua preferência?

Não mais.

Criamos o Código de Defesa do Consumidor, os órgãos de proteção ao consumidor e os juizados especiais que, na prática, funcionam como uma justiça do consumidor.

Mas o consumidor, ele mesmo, continua sendo tratado como um ser desprezível.

Não há consumidor que não tenha histórias para contar de descaso, desrespeito e abusos que lhe foram impingidos.

Desde as intermináveis horas passadas na espera de um telefonema aos equívocos do atendimento; das cobranças de produtos que jamais pedimos aos reembolsos inacessíveis.

O leitor já deve ter tentado, em algum momento, cancelar um produto pelo telefone. É tarefa para super-herói.

A ligação é desligada na sua cara, o ramal está ocupado ou não funciona fora de tal horário, é preciso ter em sua mão informações específicas sem as quais o pedido não se confirma.

Mas em um processo de atávico sadomasoquismo, nós continuamos comprando. Reclamando e consumindo.

Depois de inventar o capitalismo sem concorrência, num agudo processo de concentração e cartelização, vamos convivemos muito bem com o capitalismo sem riscos. É o consumidor que suporta todos eles. Nós devemos fazer as provas de nossa identidade e idoneidade, pagar e, então, esperar pacientemente que eles cumpram a sua parte.

No processo de enxugamento do Estado, as agências que regulam os principais serviços se tornaram independentes. Independentes dos governos, mas não das empresas que devem fiscalizar, de onde não raro são recrutados seus principais executivos. Não estranha que o poder de polícia do Estado esteja cada vez menor.

O processo de privatização tornou o desabrigo dos consumidores ainda mais agudo, porque as empresas que herdaram os serviços públicos não montaram plataformas de atendimento compatíveis com o volume dos clientes.

O resultado dessa desproporção entre lucro e serviço foi o entulhar de ações na Justiça por questões menores, que jamais deveriam passar de uma mera reclamação.

Os juizados especiais criados para desafogar as pautas de audiência das varas cíveis estão muito mais repletos de trabalho que os locais tradicionais.

Toda a proteção resultou em nada, porque se a grande massa de consumidores for à Justiça reclamar pelos abusos nas contas, pelo dano moral das horas paradas sem atendimento ou pela negativa injustificada de serviços prometidos, não vai haver Judiciário que suporte as centenas de milhares de ações.

Estamos nos acostumando com coisas sem sentido.

Para comprar um ingresso de espetáculo pela Internet é preciso pagar uma incompreensível taxa de conveniência. Ainda que a venda fora do balcão seja conveniente, sobretudo, para a própria empresa, que reduz seus custos. O mais inacreditável é ter de pagar a taxa de conveniência para cada ingresso, quando a operação é única, numa matemática que faz o preço sempre se multiplicar.

É preciso mudar nossos hábitos submissos de consumo e fazer valer a máxima de que um cliente insatisfeito é um pesadelo para o empresário.

Mecanismos de respostas coletivas já estão a nosso alcance.

O Ministério Público e a Defensoria têm legitimidade para ações coletivas. As redes sociais estão aptas a disseminar reclamações de forma viral. O Estado precisa assumir uma posição menos passiva na regulação de serviços, pois os interesses dos seus cidadãos estão imprensados pelo abuso do lucro.

É certo que nenhum sofrimento de consumo se equipara à situação do miserável que ainda está muito distante de participar, mesmo como explorado, desse mal ajambrado capitalismo.

Mas só a intervenção do Estado é capaz de fazer chegar produtos a locais e clientes que o mercado ignora. Só a regulação é capaz de obrigar tarifas sociais e expansões geográficas de pouco interesse, das linhas de ônibus às redes de Internet.

É por isso que fragilizar o Estado é tão custoso.

A crise mundial já devia ter nos ensinado os abusos que a mão nada invisível do mercado pratica e os perigos da falta de regulação.

É aprender ou sofrer.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

....linchamento, prova ilícita e relaxamento da prisão....





O flagrante se vicia pela ilicitude da prova, decorrente das violações sofridas pelo réu




A decisão que segue é do juiz João Marcos Buch, da Comarca de Joinville e aprecia a legalidade da prisão em flagrante de pessoa acusada de tentativa de furto, vítima de um início de linchamento.

Como afirma o magistrado, “Não é razoável, aliás, é injustificável que pessoas, nutridas por sentimento paranóico coletivo de vingança, arvorem-se em senhores do bem e do mal para agredir de forma covarde um jovem envolvido em um delito”.

A solução dada pelo juiz é “que o flagrante acaba por ser viciado, em razão da ilicitude da prova, ilicitude esta decorrente das violações supra elencadas”.



Ação: Auto de Prisão Em Flagrante

Os juízes não são juízes porque combatem a criminalidade, ou porque, intrépidos como mocinhos do faroeste, enfrentam e duelam com os bandidos, os malvados e os maltrapidos. Os juízes – e a lição é tão antiga quanto eles próprios! – são juízes simplesmente porque dizem publicamente o direito. E dizer o direito hoje é, antes de mais nada, pregar a Constituição, suas garantias, seus fundamentos, seus princípios e suas liberdades. Feito isso, feito apenas isso, os juízes cumprem e bem cumprem o que deles se reclama ( Editorial do Boletim da Associação Juízes Para a Democracia – ano 6, n.29)

Vistos.

O autuado J, de 19 anos, tecnicamente primário, servente de pedreiro, solteiro, foi preso em flagrante porque teria na noite de 22.5.11 tentado subtrair bens, nada conseguindo retirar, de uma residência ao tempo desocupada, através do arrombamento de uma janela. Segundo os policiais ouvidos, ao chegarem no local encontraram o autuado já detido por populares, tendo verificado que ele apresentava ferimentos na cabeça e pelo corpo em razão de agressão sofrida pelos mesmos populares, tendo assim que chamar os paramédicos para socorro. A vítima por sua vez disse que estava fora de Joinville e ao saber dos fatos retornou, encontrando a casa já arrombada. Disse que soube por outras pessoas que populares haviam "pego de pau" o autuado. Nenhum dos referidos populares foi inquirido pela autoridade policial. Junto aos autos fotografias do autuado com bandagens na cabeça mostrando a olhos nus os ferimentos.

Como se vê, as agressões desferidas contra o autuado não decorreram de legítima defesa, estado de necessidade, estrito cumprimento do dever legal ou exercício regular de um direito. O autuado ao que se observa já estava detido por várias pessoas quando passou a ser agredido.

Este magistrado não pode compactuar com o ocorrido, jamais. Não é razoável, aliás, é injustificável que pessoas, nutridas por sentimento paranóico coletivo de vingança, arvorem-se em senhores do bem e do mal para agredir de forma covarde um jovem envolvido em um delito, se não de menor potencial, de menor gravidade e sem violência contra a pessoa (tentativa de furto com arrombamento).

Os novos padrões de civilidade e os fundamentos do Estado Democrático de Direito não permitem, em absoluto, a medieval "justiça pelas próprias mãos". Estes fundamentos, ao contrário do que muitos pensam, são conquistas de todos, da vítima, do réu, deste magistrado, do Promotor de Justiça, do advogado, dos populares, dos trabalhadores, dos pais de família, das crianças, adultos e idosos, ou seja, de todos os sujeitos, todos os seres humanos. São garantias de que nunca ninguém jamais sofrerá vinditas e suplícios e que todos, sempre que acusados de um delito, terão direito a um julgamento resultante do devido processo legal, com ampla defesa e contraditório, perante o Juízo Competente. Admitir atos de barbárie como o que hora se anuncia é retroceder no tempo, para antes até mesmo de Beccaria (Dos Delitos e das Penas).

Aliás, conforme os comandos constitucionais é direito do preso ter sua integridade física e moral respeitadas (art.5º, XLIX). Sempre é bom repetir que o Princípio Fundamental da República Federativa do Brasil, consistente na dignidade da pessoa humana (art.1º, III, da CF), já suficientemente solidificado, precisa ser respeitado. E neste ponto, segundo os ensinamentos do Ministro Celso de Melo a dignidade da pessoa humana "representa – considerada a centralidade desse princípio essencial (CF, art.1º, III) – significativo vetor interpretativo, verdadeiro valor-fonte que conforma e inspira todo o ordenamento constitucional vigente em nosso país e que traduz, de modo expressivo, um dos fundamentos em que se assenta, entre nós, a ordem republicana e democrática consagrada pelo sistema de direito constitucional positivo. Convenção Americana sobre Direitos Humanos (art.7º, ns. 5 e 6). Doutrina. Jurisprudência" (HC n. 85.988, 2ª Turma, j.04.05.10, v.u., DJU 28.05.10).

O resultado no caso dos autos aliás é que o flagrante acaba por ser viciado, em razão da ilicitude da prova, ilicitude esta decorrente das violações supra elencadas. E uma vez ilícitas, não podem ser aproveitadas (art.5º, LVII, da Constituição Federal c/c art.157, do Código de Processo Penal).

Ex positis:

Em obediência ao Princípio Fundamental da República Federativa do Brasil, consistente na dignidade da pessoa humana (art.1º, III, da CF), com base na garantia de respeito à integridade física e moral aos presos (art.5ª, XLIX, da CF), no Estado Democrático de Direito, que veda a "justiça pelas próprias mãos", bem como na inadmissibilidade da prova ilícita (art.5º, LVII, da CF e art.157, do CPP) RELAXO A PRISÃO de J.L.L. (art.5º, LXV, da CF). Expeça-se o r. Alvará de Soltura, se por al não estiver preso.

Incabível a decretação de prisão preventiva tendo em conta a primariedade do réu e a natureza do delito.

Intime-se o Ministério Público.

Requisite-se à autoridade policial a instauração de inquérito policial para apurar os delitos em tese de lesões corporais e tortura sofridos pelo autuado, independentemente de outros que se verificarem.

Aguardem-se as demais peças do auto.

Joinville (SC), 23 de maio de 2011.


João Marcos Buch
Juiz de Direito

domingo, 18 de dezembro de 2011

....defensoria como efetivação do acesso à justiça....

A Defensoria Pública tem o DNA da inclusão no sangue e é a principal porta de acesso da população carente ao Judiciário












O texto que segue foi a base para a palestra “Defensoria Pública como instrumento de efetivação do acesso à justiça”, proferida no Seminário de Implantação da Escola Superior da Defensoria Pública do Estado do Maranhão, no dia 13/12/11, em São Luís.

Na ocasião, além da implantação da Escola e posse de seu primeiro diretor, Cristiano Matos de Santana, foram realizados também painéis com a exposição de Fábio Souza de Carvalho, Marlon Jacinto Reis e Ozanira Silva e Silva.


Defensoria Pública como instrumento de efetivação do acesso à justiça


É uma enorme satisfação estar presente em São Luís para discutir o papel da Defensoria e o acesso à justiça, dois temas que me são muito caros.

Agradeço enormemente o gentil convite e espero poder retribui-los com o mesmo prazer que é para mim conversar com vocês.

Tenho o costume de dizer que é entre os defensores que encontro o meu mais carinhoso habitat no meio jurídico. Digo isso não apenas por que tenho muitos amigos defensores públicos e com eles convivo com frequência. Mas, sobretudo, porque a Defensoria representa um papel primordial na minha concepção de justiça.

A ideia de uma balança que equipara grandes e pequenos, no meio de uma floresta de tamanhas desigualdades, a noção de dar a cada um o que é seu, nessa terra de tantos despossuídos, e de despossuídos de tanto, o papel do juiz de garantidor da dignidade humana, onde ela tende a ser tão rara e tão esquecida.

Nada disso se aperfeiçoa sem o concurso da defensoria pública.

A Defensoria é mais do que uma instituição indispensável à justiça. É protagonista dela, não apenas coadjuvante.

Tenho boas lembranças também da cidade de São Luis. Aqui realizamos, em 2005, quando estive na presidência da Associação Juízes para a Democracia, nossa primeira reunião de diretoria fora da sede, em São Paulo. Nascidos de um grupo de 37 juízes paulistas, experimentávamos, então, os primeiros frutos de uma política que fez nossa Associação exercer gradativamente sua vocação nacional. Pude conhecer aqui juízes valorosos, dignos mas também indignados, como convêm aos juízes para a democracia.

Neste 2011, completamos nossos primeiros vinte anos. E continuamos firmes e fortes, no mesmo propósito de construir uma sociedade mais livre, justa e solidária, com o Judiciário que se assuma como instrumento de uma democracia além das formas e das formalidades.

E neste desenho de Justiça, que mira na proteção e emancipação dos menos favorecidos, a presença da uma defensoria pública forte, atuante e autônoma, é nada menos do que essencial.

Não é por outro motivo que a AJD tem continuamente se engajado nos Movimentos para a Criação da Defensoria Pública. Participou em São Paulo durante vários anos e participa atualmente em Santa Catarina. Somos solidários e mais do que isso ativistas para o fortalecimento de todas as Defensorias já criadas, convictos de que ainda estão em condições aquém das necessidades que as aguardam. Não é surpresa, todavia, porque as políticas sociais são sempre postergadas. E não nos enganemos, nada que diz respeito ao povo é conquistado sem dor, sofrimento e pressão.

Acessar a Justiça é um Direito Humano. E a Defensoria é a principal porta de acesso da população carente ao Judiciário.

Falemos um pouco do Judiciário, primeiro.

O retrato mais comum do Judiciário hoje é o gargalo. Se pudéssemos representar o Judiciário em uma imagem, quantos de nós não pensaria na fotografia de um engarrafamento de veículos ?

Poder Judiciário incapaz de resolver em tempo razoável o expressivo volume de suas demandas. A modernização do ditado já nos leva a dizer: a justiça que tarda, falha.

Penso, no entanto, que é preciso estender um pouco a visão.

Se é verdade que o Judiciário está entupido de processos, de outro lado ainda está carente de demandas.

Há uma nítida mistura entre nós de excesso e escassez, principalmente porque persistem enormes estratos da população que ainda são invisíveis para o Estado, que dirá para o Judiciário. Invisíveis, óbvio, excetuando-se o sistema criminal, onde são clientes preferenciais.

Penso que a distribuição dos custos da justiça também é desproporcional. Os atrasos e as dificuldades, as alegrias e principalmente os sofrimentos do sistema, não são sentidos ou suportados da mesma forma por todos os seus usuários.

Duas pesquisas recentes divulgadas pelo CNJ indicam de forma visível essa desproporção:

45% dos presos são provisórios –com processos que ainda não terminaram;

Entre os 100 maiores litigantes nos tribunais superiores, além dos órgãos públicos, só se encontram bancos.

Em um tétrico e simplificado resumo: os pobres continuam superlotando cadeias, enquanto ricos entopem tribunais.

Tudo isso para dizer que não existe no Judiciário apenas um único problema: a lentidão.

Durante muito tempo, nos concentramos na economia como se existisse apenas a inflação. Mas quando a inflação ficou sob controle, nem por isso se pôde dizer que a desigualdade social (que é de fato nosso problema mais agudo) havia sumido com a estabilidade.

Além de não ter instrumentos para julgar em tempo razoável as demandas que nele ingressam, o Judiciário de certa forma reproduz a desigualdade que lhe incumbia reduzir.

Durante muito tempo, o Judiciário se colocou ao largo de sua ineficiência, responsabilizando o Executivo, pela falta de recursos financeiros e o Legislativo, pelo excesso de recursos processuais.

Com a reforma, o Judiciário começa a se convencer de que também é parte do problema, o que é extremamente positivo e que se deve em grande medida à própria criação do CNJ, quebrando uma visão cartorial e quase coronelista dos Tribunais.

Instaurou-se, assim, a ideia de que Justiça padece de problemas de gestão. Isso pelo menos nos fez olhar um pouco mais para nós mesmos e afrontar nosso histórico tradicional de arrogância. Não fosse por nada, só por isso valeu a pena.

Mas a visão gerencial da justiça não a esgota.

É preciso ter em conta que postulados de eficiência, organização e método não são suficientes para a solução de todos os problemas e em seu nome, alguns efeitos colaterais também são produzidos.

Indicadores, metas, objetivos e resultados são importantes instrumentos para a política da eficiência (obtenção do resultado a menor custo).

Mas sempre é bom ter em conta que Judiciário também deve ter uma dimensão ética (ou seja, o resultado não pode ser alcançado a qualquer custo).

Não é porque gastamos recursos para trazer presos ao Fórum, que vamos negar a eles o direito de estar presentes fisicamente à audiência, ao lado de seu defensor e diante de seu juiz.

Judiciário deve ter também uma função emancipatória (ou seja, também não é qualquer resultado que nos interessa).

Não é porque os tribunais estão abarrotados, que devemos limitar abrangência dos Habeas Corpus –o novo discurso da moda dos tribunais superiores. Justiça deve ser a garantidora de fruição dos direitos constitucionais. Estamos aí para abrir portas e não fechar caminhos.

Temos de ter o cuidado, mesmo quando pensamos em agilidade, eficiência e gestão de não jogar o bebê, junto com a água do banho.

E, concluindo esse breve diagnóstico, diria ainda que não devemos ter a ingenuidade de considerar que é possível modernizar o Judiciário, sem ao mesmo tempo democratizá-lo.

O Judiciário ainda é um poder extremamente oligarquizado, que se divide em castas e que dá pouquíssimo valor ao conjunto de seus membros. Se o tratamento é desigual internamente, como esperar que nos livremos do elitismo de que tanto nos acusam?

Na democracia, não deve haver áreas de sombra, lugares em que seus postulados estejam interditados.

Mas democratizar o Judiciário também significa construir pontes para seu acesso –afinal, Judiciário é um serviço público de primeira necessidade e não pode simplesmente obstruir suas entradas.

Comecemos do princípio.

Nenhuma política de acesso à Justiça é mais importante do que uma educação pública de qualidade –quem não conhece, não exige, não se defende, não pressiona.

É fato que a distribuição de renda no Brasil é extremamente desigual; e a distribuição de educação é ainda mais profunda, o que termina por condenar grandes parcelas da população a subempregos e subsalários. Temos feito avanços, hoje contestados por suas virtudes, não por seus vícios. Mas não podemos deixar de reconhecer que ainda são passos tímidos.

Mesmo no que respeita à Justiça, a compreensão dos direitos é extremamente fragilizada: pouco se sabe, muito se teme.

Há um nítido desconforto e insegurança de parcelas expressivas da população quanto a sua própria posição de credor de políticas. Muitos são levados a crer que direitos fundamentais, inscritos e encravados na Constituição, são ainda meras concessões a que devemos agradecer a quem nos oferece. Situação que favorece quem ser retribuído na eleição.

No cotidiano, ainda existe um enorme desconhecimento de situações que acabam por ensejar, muitas vezes, prática de ilícitos ou vitimizações pela população mais carente.

Lembro de questões que vejo no dia a dia na Justiça Criminal. A aquisição por parte das pessoas de menor instrução de bens sem qualquer documentação ou segurança.

Algumas vezes são processadas por receptação, porque delegados, promotores e juízes avaliam que elas não tomaram medidas de cautela que um comprador normal (normal, no nosso padrão de normalidade, ou seja com instrução) teria tomado; em outras, são vítimas frequentes de estelionatários, como acontece em loteamentos irregulares.

Há, sem dúvida, ainda um enorme estranhamento diante da própria Justiça, seja pela desconfiança, seja pelo medo.

E não se pode dizer exatamente que o Judiciário de alguma forma auxilie a quebrar essa barreira.

O poder ainda é construído de forma imperial, nossos edifícios são Palácios, nossos tribunais são Cortes, e nossas vestes e linguagens rebuscadas intimidam e em muitos casos afastam a população da justiça.

Não é desconhecido, por exemplo, o caso de um juiz trabalhista que não permitiu que um operário acompanhasse audiência de seu processo calçando chinelos de dedo –que considerou um desrespeito. Depois da enorme repercussão negativa do caso, arrependido, o próprio magistrado comprou um par de sapatos ao reclamante.

Mas não compreendeu que não são as partes que devem se vestir de gala para ir ao Fórum, mas os juízes que devem se despir de seus mantos para alcançar o povo –ele é nosso patrão, por mais estranho que isso possa parecer a quem se acostumou a se conceber apenas como autoridade. É para ele que trabalhamos e a consecução de seus direitos é que justifica nossos salários.

Eu diria, mais, que há desconhecimentos de parte a parte e que os juízes, em grande medida também não conhecem a realidade de nossos habitantes mais humildes.
Lembro de um caso muito paradigmático para mim, que era de um furto de energia. A Defensora Pública, conversando com o réu antes da audiência, ingressa na sala para dizer que ele ia confessar, que as duas testemunhas arroladas pela própria acusação também iam confessar. Todos no bairro, há anos, se utilizam de ligações clandestinas, porque o estado não liga a energia no bairro diante da irregularidade dos imóveis –que são, todavia, objeto de tributos. Toda a instrução se direcionou a este fato, confirmado pelos próprios policiais: como julgar o furto de energia em um bairro no qual o Estado se recusa a fornecê-la? Quem consegue nos dias de hoje viver sem energia?

Evocando aqui Roberto Lyra Filho, pode-se dizer que nosso direito ainda é predominantemente encontrado nos livros, não achado nas ruas.

Não bastasse o desconhecimento de muitas realidades, a formação do operador do direito é uma formação calcada no positivismo jurídico.

Nas teorias puras que aprendemos nas escolas de direito, só a lei “positiva” conta. Todo o seu entorno, nos ensinam, está fora do direito. Mas como interpretar a lei, com autonomia, daquilo que forma o próprio direito, seus conflitos, suas tensões? O direito existe para a vida e não a vida para o direito.

Neste positivismo a que nos rendemos, o legalismo expulsa a justiça, a forma fulmina o conteúdo, as regras alienam os princípios.

Costumo lembrar o caso do direito ao silêncio, garantido em 1988. Durante muitos anos, juízes continuaram advertindo os réus que o silêncio era um direito, mas podia ser interpretado a seu desfavor, como estava consignado no Código de Processo Penal até poucos anos atrás. E muitos réus foram condenados a custo de um suposto “silêncio na lavratura da prisão em flagrante”, sob o falso e ilegítimo fundamento de que um inocente jamais se cala.

Só quando a lei infraconstitucional mudou, isso de certa forma se atenuou. A mudança da lei teve um efeito mais decisivo do que a mudança da Constituição.

Nas escolas da magistratura, organizam-se visitas a academias de polícia, bolsa de valores e até laboratório de análises clínicas. Mas que contato temos com as comunidades carentes? Como reconhecer o seu “padrão de normalidade” que vai guiar nossos juízos?

Na hora de criar soluções, por óbvio, não saem das nossas fronteiras e acabam por atender basicamente a demandas amplificadas pelas revistas semanais, como os juizados nos aeroportos, quando o problema do transporte público terrestre é muito mais grave, há muito mais tempo e envolve um número muito maior de usuários.

O acesso à justiça é, sobretudo, acesso a uma ordem jurídica justa.

Falar em acesso à justiça, portanto, pressupõe igualdade, mas é preciso convir que o universo legal conspira todo ele pela desigualdade.

As regras são distintas para grandes e pequenos e os exemplos são fartos.
Para a cobrança bancária, a legislação chegou a criar até o mecanismo de prisão (hoje sepultado pelo STF), na chamada alienação fiduciária. Agora, para ações contra os bancos, já é uma enorme dificuldade considerar incluídas no direito do consumidor.

A tutela penal, então, é predominante da propriedade privada –não é a toa que a população presa é a mais destituída de patrimônio. Seletividade se inicia na vigilância –para onde direcionar as luzes da polícia, estaremos direcionando os réus em juízo.

O direito à propriedade se sobrepõe à moradia; frustrar direito à moradia não é punível, frustrar direito à propriedade é crime.

O sistema de justiça como um todo acaba, com esses parâmetros invertidos, por reproduzir desigualdades.

E infelizmente, a desigualdade legal normalmente se opera em favor do forte.

É o que vemos na preservação da “síndrome dos desiguais”: foro privilegiado para autoridades, a prisão especial aos diplomados, a imunidade parlamentar a políticos.

E não se pode negar que o próprio garantismo dos tribunais superiores ainda não está ao alcance de todos.

Importante é compreender essa realidade, entender que a lei não é neutra, e compreender o papel do juiz, que também não pode ser neutro. O juiz neutro dissemina a violência do poder, ao invés de cumprir a sua função constitucional de ser o garantidor dos direitos.

É essa tensão que dimensiona a extrema relevância do papel da Defensoria Pública.

A Defensoria é, por excelência, a principal porta de acesso à justiça para a população carente –provavelmente a única.

A “assistência jurídica” prevista na Constituição hoje, como vocês bem sabem, é maior do que a antiga noção de “assistência judiciária”.

Inclui orientação prévia, bem ainda educação jurídica, de cidadania, destinada a propagar o conhecimento dos direitos. Defensores não são e não podem ser mero instrumentos ad-hoc, para formalizar audiências.

O papel dos defensores tem um importante cunho emancipatório: conhecer as necessidades e organizar a sociedade para reclamá-las.

A Defensoria é capaz de atacar os dois pontos do problema de acesso à justiça: educação e desigualdade.

Política pública de assistência jurídica passa necessariamente pela criação, instalação e estruturação da Defensoria Pública como um “Sistema único de Assistência Jurídica” –não um remendo de improvisações ou terceirizações que sustentem meros interesses corporativos e outros interesses inconfessáveis.

A Defensoria Pública foi instituída pela Constituição Federal de 1988 e é incompreensível que, em vários Estados, depois de duas décadas, tem tido tantas dificuldades de se instalar efetivamente.

Em São Paulo, por exemplo, demorou 18 anos para ser criada e mesmo assim, com um número de profissionais muito inferior ao necessário para o atendimento à população carente –são apenas 500 defensores para mais de quarenta milhões de habitantes.

Outros Estados ainda não a instalaram e Santa Catarina nem a criou.
Penso que é a hora de além de denunciar o descaso dos governos estaduais, instar também o governo federal para assumir o seu papel de formador de política públicas e trabalhar com uma ideia que lhe é muito familiar, o sistema de contrapartidas.

Se o Ministério da Justiça pode investir milhões de reais para a construção de presídios pelo país, porque não exigir, como condição, a criação ou fortalecimento das defensorias nos Estados que ajuda?

Se cerca de vinte mil presos foram soltos com mutirões carcerários realizados pelo CNJ, quanto se poderia economizar garantindo defensores a todos os presos, em todos os presídios? Se a linguagem do poder é do orçamento, ainda assim a Defensoria é superavitária.

Para tratar a Defensoria como verdadeira política pública é essencial fazer dela uma instituição forte, autônoma e independente –sem depender de afagos do governo, com quem pode ter de litigar judicialmente.

Se a Defensoria serve ao poder, quem defenderá os pobres da violência estatal? Quem vai garantir que os carentes não sejam simplesmente removidos de suas moradas ou das ruas para embelezar ou higienizar cidades?

É preciso dotar a defensoria de instrumentos que tornaram forte a instituição do Ministério Público.

Não penso aqui em criar prerrogativas para transformar, como autoridade, defensores em promotores – não falo de carteirinhas ou carteiradas, porte de armas ou períodos de descanso.

Penso em que se crie condições para a efetiva defesa dos mais necessitados, hoje em tratamento francamente desigual, por exemplo, nas lides penais.

Disse isso no Congresso Nacional dos Defensores Públicos: se me perguntarem como traduzir o garantismo em uma só medida, eu lhes diria: marcação homem a homem. Onde houver um juiz e um promotor, deve haver também um defensor público.

O crescimento do Ministério Público, em especial depois da Constituição de 1988, foi extremamente positivo para o Estado Democrático de Direito –a proteção do meio ambiente e da probidade administrativa que o digam. Não há porque imaginar que o crescimento da DP também não o seja.

Se é certo que o Ministério Público é o advogado da sociedade, a Defensoria Pública é a advogada de quem quer fazer parte da sociedade, de uma população ainda marginalizada, inclusive na Justiça.

A Defensoria Pública tem o DNA da inclusão no sangue e pode se revelar um instrumento eficaz na luta pela redução das desigualdades, que, não esqueçamos, não é apenas uma plataforma partidária, bandeira programática ou letra morta de pura poesia: a redução das desigualdades é um objetivo fundamental da República.

Outra questão essencial para o acesso à justiça é o fortalecimento das ações coletivas, hoje uma absoluta exceção no movimento forense.

Infelizmente o dogmatismo sempre apostou no julgamento de ações individuais, inclusive para evitar disputas de classe.

Isso é que Boaventura Santos denominava trivialização de conflitos. A legislação sempre foi tímida quanto à possibilidade de conflitos coletivos e a reposta dos tribunais, extremamente restritiva.

Toda sorte de obstáculos processuais foi criada para as causas coletivas. De modo que o STF é especialmente responsável pela imensidão de “pedidos idênticos” do qual hoje se queixa.

Lembro-me de uma demanda de estudantes de seis anos que estavam saindo das escolas municipais e impedidos de começar estudos nas estaduais. O MP ingressou com ação civil pública, que foi barrada pelo TJ. Ao final, foram dezenas de milhares de mandados de segurança que acabaram nem sendo julgados, porque, no meio do caminho, as crianças completaram sete anos.

E hoje, ao invés de fortalecer os institutos das ações coletivas, a reforma do judiciário preferiu concentrar a jurisdição para dar valor coletivo a decisões individuais.

E se as ações coletivas são essenciais para a promoção das políticas públicas, e são via de regra propostas contra o Estado (que é quem está no débito das ações sociais), mais uma razão para o fortalecimento da Defensoria, inclusive na indispensável legitimidade para as ações civis públicas.

Se o ativismo judiciário admite discutir políticas públicas em processos judiciais, a meu ver corretamente, é sinal ainda mais evidente de que o acesso à justiça também é acesso a políticas públicas.

E quem mais é carente de políticas públicas do que a população mais pobre?

A autonomia da DP é indispensável para, por exemplo, exigir criação de vagas em escolas públicas ou um transporte coletivo que garanta a dignidade, desnudando a falta de políticas sociais.

Em caso contrário, o que acontece é que, também pela via da Justiça, os pobres serão os que menos atingirão as políticas públicas –parte disso já ocorre na questão dos remédios, os que mais tem acesso a médicos particulares é justamente os que mais buscam remédios de alto custo na justiça.

Tudo o que devemos fugir é privilegiar quem menos precisa.

Juizados Especiais foram criados para simplificar e baratear a justiça. No início, eram feitas apenas sessões à noite, justamente para possibilitar que os trabalhadores tivessem acesso a ele, após o serviço.

Os Juizados acabaram despertando uma enorme demanda reprimida (daqueles que queriam entrar em juízo sem pagar advogados).

Mas é certo que hoje, predominantemente, tem-se um Juizado afeto a questões de classe média: aumento de planos de saúde, mensalidades escolares, assinatura telefônica, acidentes de veículo, TV a cabo, atrasos e cancelamentos de viagens aéreas etc.

As classes populares ainda não têm sido convidadas a participar desta experiência, ou talvez não se sintam à vontade na casa da Justiça, ou não tenham o conhecimento suficiente para transformar suas necessidades, que não são poucas, em demandas.

Espera-se profundamente que esse quadro também mude com o fortalecimento da Defensoria.

Se pudesse fazer algumas recomendações, diria para que vocês jamais se dispam de sua condição anfíbia, aptos a andar nos chãos de terra e ao mesmo tempo conviver com o discurso das togas.

Essa interlocução com os mais carentes nos ajuda a conhecer realidades que não dominamos; permite que vocês transformem as necessidades em pedidos, evitam que nós, juízes, nos acomodemos dentro de nossa redoma.

Que por intermédio das formas como vocês escutam as prioridades das camadas mais carentes (conferências, ouvidoria externa, abertura nos conselhos, encontros estaduais), vocês se mantenham permanentemente permeáveis pela sociedade, de modo que possam nos transformar, e não apenas se transformar naquilo que somos.

Nós precisamos diuturnamente de ataques a nossa sensibilidade. O defensor transforma o juiz ao longo do tempo. Como costumo dizer, citando Arnaldo Antunes: o seu olhar melhora o meu.

A vocês cabem escancarar as contradições e as injustiças, a cada dia, em cada processo, por cada réu ou autor, para nos manter atentos e vigilantes na construção da justiça.

E, sobretudo, tensionar as novas interpretações e forçar que os avanços de uns juízes sejam espalhados a outros –vocês, mais do que ninguém, tem essa capacidade de nos polinizar com boas novidades.

Tenho me batido pela questão do fortalecimento das instituições e penso que devemos extirpar desse processo os ciúmes e as vaidades.

A magistratura também reagiu ao crescimento do MP e somente depois fomos nos dar conta da importância de um parceiro institucional forte; acontece o mesmo hoje com o Ministério Público em relação à Defensoria. Os promotores hão de entender que mais do que concorrentes, vocês são parceiros na construção do Estado.

E o crescimento institucional da Defensoria também deve puxar o da advocacia pública, dada importância para todos, numa república, de uma advocacia de Estado, desvinculada dos caprichos do governante de plantão.

O fortalecimento das carreiras de Estado, fortalece, em suma, o próprio Estado. E só o Estado é capaz de reduzir tantas desigualdades e injustiças –já sabemos que o mercado não o é.

Juntos, devemos reagir ao ataque especulativo contra o Estado que o legado neoliberal persegue sem cessar, fazendo parecer que o Estado é um grande fardo: pesado como um elefante, custoso, ineficiente, que por isso deve ser reduzido, quando não definitivamente abandonado.

Mas a realidade nos mostra exatamente o contrário, que mais Estado é melhor do menos Estado, que a falta de Estado expõe os mais pobres à lei da selva, onde não têm a menor chance. E que a mão do mercado, diferentemente do que se apregoa, é extremamente visível e enormemente desigual.

Mas defender o Estado não é defender o estado de coisas.

É preciso se apropriar do Estado para inverter a perversa lógica dos privilégios, de modo a fazer com que sirva ao povo que mais dele necessite.

Não vejo ninguém melhor para realizar essa tarefa do que aqueles que por missão constitucional tem a busca da justiça aos mais humildes.

Que vocês se mantenham abertos a conhecer de fato as carências dos carentes, e por elas se guiarem para estabelecer suas prioridades, que consigam estrutura e tempo para participar da educação para a cidadania, esclarecendo e organizando as demandas, que perseverem traduzindo a linguagem do povo rompendo os formalismos que o distanciam da justiça, e que, sobretudo, continuem melhorando nosso olhar.

A democracia agradece.

sábado, 17 de dezembro de 2011

....o custo humano da guerra fria....

Contrabando de quinze mil crianças é a página mais triste das retaliações americanas à Revolução Cubana







Os últimos soldados da guerra fria, Fernando Morais




Espiões cubanos enviados secretamente a Miami para serem infiltrados em organizações anticastristas de modo a evitar atentados contra pontos turísticos na ilha. Espionagem, contraespionagem, terrorismo e política, narrados de uma forma eletrizante. Apesar de emocionante, o thriller de Fernando Morais (“Os últimos soldados da guerra fria') não tem nada de ficção.

É história recente, mas praticamente desconhecida entre nós. As escaramuças e retaliações americanas à Revolução Cubana, e a contundente ação dos dissidentes sediados em Miami pode ajudar a jogar luz sobre a violação de direitos humanos na ilha –e no continente americano.

De todos os episódios que Morais narra, inclusive para contextualizar as ações de ambos os lados, o mais impactante é a Operação Peter Pan. Por ela, quase quinze mil crianças cubanas foram contrabandeadas para os EUA, sob falsas ameaças. De novo, parece enredo de ficção. Mas Fernando Morais a relata com uma preciosidade de detalhes e ajuda a compreender como a propagação do terror com o mote 'comunista come criancinha' foi muito mais real e muito mais drástico do que uma piada de mau gosto.

Conheça o episódio pela narrativa do autor.


No auge das primeiras confrontações entre Havana e Washington, a CIA e o arcebispo Coleman Caroll, titular da arquidiocese de Miami, arquitetaram um espantoso plano de transferência massiva de crianças de Cuba para os Estados Unidos, para o qual contaram com o apoio indispensável da Igreja cubana. Batizada de Operação Peter Pan e inspiradora de livros e filmes, a ação teve início numa noite de outubro de 1960, com a patética proclamação de um locutor da rádio Swan, stacão de ondas médias da CIA instalada na ilha Cisne, em território hondurenho, para transmitir programas dirigidos a Cuba. "Mães cubanas! O governo revolucionário está planejando roubar seus filhos!", gritava o radialista. "Quando fizerem cinco anos, seus filhos serão transformados em monstros materialistas! Alerta, mães cubanas! Não deixem que o governo roube seus filhos!" O segundo passo foi dado na manhã seguinte, quando centenas de milhares de panfletos foram espalhados pelo país com o texto de uma falsa lei, redigida nos escritórios da CIA, que estaria para ser posta em vigor, "a qualquer momento" pelo governo de Cuba. Repleto de considerandos e de citações da legislação em vigor, o documento apócrifo era assinado por "Doutor Fidel Castro Ruz, primeiro-ministro" e pelo então presidente da República, Osvaldo Dorticós.





(...)


O homem escolhido pela arquidiocese para executar o plano era o padre Bryan Walsh, um irlandês cinquentão de 1,90 metros de estatura e físico de pugilista que vivia nos Estados Unidos desde a juventude. Ao chegar a Havana, semanas depois, levando na bagagem nada menos do que quinhentos vistos de entrada nos Estados Unidos em branco, Walsh encontrou uma sociedade chocada. Os desmentidos do governo revolucionário não tinham sido suficientes para diminuir a apreensão das famílias cubanas. Além disso, vigários de paróquias de todo o país, especialmente no interior, onde vivia a população mais simples e desinformada, se encarregaram de difundir a macabra versão de que as crianças separadas dos pais seriam removidas para Moscou e transformadas em alimento enlatado para o consumo da população russa. Não era a primeira vez que se utilizava para fins políticos história tão medonha e inverossímil. A anedota segundo a qual comunistas comiam pessoas nascera no fim da Segunda Guerra, quando a máquina de propaganda fascista inundara a Itália de folhetos que afirmavam que os soldados italianos que se entregassem ao Exército Vermelho seriam mortos, triturados e transformados em comida para saciar a fome que dizimava milhões na Rússia stalinista.






(...)

....quando a Operação Peter Pan foi concebida, Cuba e Estados Unidos ainda mantinham relações normais. Centenas de viajantes cruzavam diariamente o estreito da Flórida, nos dois sentidos, nos voos que ligavam a capital cubana à Flórida. E a ponte aérea entre Havana e Miami foi o caminho escolhido pelo ladre Walsh para por em prática a operação. Por exigência da CIA, ninguém viajaria acompanhado dos pais. Os quinhentos formulários em branco que o religioso levara na primeira viagem não seriam suficientes, como se saberia mais tarde, para atender sequer a 5% dos pequenos candidatos à salvação do inferno comunista.

(...)


Segundo a ONG americana Pedro Pan Group, ao todo foram contrabandeados 14048 menores, de ambos os sexos, alguns dos quais acabariam por se converter em personagens da vida pública norte-americana, como o senado republicano Mel Martinez, o ex-prefeito de Miami, Tomás Regalado, e os diplomatas Eduardo Aguirre, nomeado embaixador na Espanha pelo presidente George W. Bush, e Hugo Llorens, que era embaixador em Honduras em 2009, quando da deposição do presidente Manuel Zelaya. Instalados inicialmente em orfanatos católicos e instituições de caridade, milhares deles jamais voltariam a ver os pais e mães. No começo de 1962 chagava ao fim a Operação Peter Pan, um dos mais dramáticos e dolorosos episódios da história da Revolução Cubana.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

....Sucesso de Sócrates é uma lição de liberdade....

Em memória ao Doutor, Itaquerão devia se chamar Sócrates Brasileiro






Dono de um corpo alto e pés pequenos, seu equilíbrio era instável.

Peixe fora d'água no mundo do esporte, preferiu terminar a faculdade, enquanto os colegas de clube treinavam para os jogos.

Manteve durante a toda a vida profissional o espírito libertário, em um dos meios mais conservadores e autoritários, tradicionalmente gerido por déspotas.

Comunista de coração, brilhou no momento em que o futebol descortinava seu lado mercadoria.

Apesar de tudo isso, a ovelha negra não foi excluída do grupo -transformou-o.

Viveu como um ídolo, morreu como um ícone.

Há quem possa dizer que o virtuosismo deu conta das esquisitices e que, afinal de contas, foi o fato de ser craque que garantiu seu sucesso.

Mas Sócrates não será lembrado apenas pelos lances de calcanhar, com o que inteligentemente compensava a falta de velocidade, ou pelos belos gols no Corinthians e na seleção.

O Sócrates jogador nunca se separou do Sócrates cidadão. O Sócrates campeão sempre será o Sócrates da democracia.

Nada melhor o resume do que a mão esquerda levantada, punho cerrado, evocando a mensagem dos panteras negras, ao comemorar cada um de seus gols. Foi assim que jogadores e torcedores o lembraram no Pacaembu.

Sócrates é, sobretudo, uma lição.

Para uma juventude que quer sempre andar na moda e seguir o passo do grupo. Para o conformista que tem pavor das mudanças. Para o ambicioso que só procura consagradas fórmulas do sucesso. Para conservadores e tradicionalistas que receiam qualquer transformação. Para todos aqueles que se orgulham em obedecer os padrões e se animam em apontar dedos para as ovelhas rebeldes a serem sacrificadas.

Uma lição de que é possível jogar luz nos ambientes mais escuros. De que é possível perseguir os sonhos, nas condições adversas. De que não é preciso abandonar convicções para triunfar. Enfim, de que a liberdade não é um valor desprezível.

Como todo ser humano, Sócrates também tinha seus defeitos. Não é um herói, nem um santo. Manteve hábitos irregulares para um esportista e o vício do alcoolismo, que não reconheceu até a morte, custou-lhe preciosos anos de vida.

Morreu jovem e sua vida de contrário terminou em uma inusitada coincidência, domingo, com o Corinthians campeão. Como o sonho dourado de todo ídolo, foi chorado e comemorado ao mesmo tempo.

Corinthians que aprendeu a torcer, respeitar e amar. Sua passagem pelo time transformou a ambos. Nem Sócrates nem o Corinthians foram o mesmo depois.

Mas, passados trinta anos desta experiência comum, muita coisa se perdeu pelo caminho.

O Magrão, símbolo do futebol engajado, foi substituído por Ronaldo, ícone do futebol marketing.

O Corinthians, time do povo, é o que cobra os ingressos mais caros do futebol brasileiro.

O fiel torcedor já não é o mais sinônimo do sofredor e perseverante 12º jogador do time; é uma marca de consumidor preferencial.

Honrar a memória do Doutor é mantê-lo na vida dos contrários, na contramão da submissão ao poder ou ao mercado.

Por tudo isso, o Corinthians devia homenageá-lo dando-lhe o nome do estádio de Itaquera.

Cícero Pompeu de Toledo, Paulo Machado de Carvalho, Governador Magalhães Pinto, Presidente Vargas.

Com raras exceções, nossos estádios têm nomes de políticos ou dirigentes, quem esteve próximo ou exerceu o poder. E como o poder faz tempo já se deslocou para o mercado, a expectativa dos dirigentes é vendê-lo a uma boa marca.

Itaú, Brahma ou Johnson e Johnson. Que torcedor ou boleiro se sentirá à vontade nesse espaço?

Você não preferiria que o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014 fosse dado no estádio Sócrates Brasileiro?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

....Legitimidade das UPPs....

Pacificação é culto aos fins que justificam os meios





Recebi o artigo que segue do advogado e professor Thiago Minagé -foi publicado originalmente na Revista Estado de Direito, n. 32.

Minagé questiona “o uso indiscriminado e rotineiro de fundamentações que usam expressões com meros apelos retóricos” em decisões judiciais e discute a legalidade das ações que resultaram nas chamadas UPPs: “O Estado sob a ale¬gação de que está colocando um fim à criminalidade, ao estado paralelo que não respeita a ordem jurídica vigente, comete os mesmo erros e pratica os mesmos atos que as ‘forças que o antecederam’ praticavam”.


Legitimidade das UPPs cariocas, Thiago Minagé*


No último dia 27/09/2011, em reunião da 2ª Turma do STF, o Ministro Luiz Fux, em decisão proferida no HC, de n. 106963/MG, reiterou a necessidade de se demonstrar a real e efetiva neces¬sidade da restrição de direitos. O mais espantoso é que, desde 1988, é mandamento constitucional no art. 93, IX da CRFB que todas as decisões serão fundamentadas “ ...Sob pena de nulidade...”.

Ocorre que, o uso indiscriminado e rotineiro de fundamentações que usam expressões com meros apelos retóricos são cada vez mais comuns e violam cada vez mais direitos e garantias constitucionais con¬quistadas por nossa sociedade em verdadeira afronta ao Estado Democrático de Direito. Exemplo extre¬mamente claro se dá nas localidades cariocas onde se implantou a denominada – Unidade de Polícia Pacificador UPP – sob afirmação e fundamentação de trazer a paz social onde reinava a desordem total.

A ideologia da medida é acabar com o deno¬minado poder paralelo, que cria as próprias regras, decide como aplicá-las e, por fim, as executa. Mas o que está acontecendo, senão exatamente a mesma coisa? Domicílios são invadidos sem qualquer ordem judicial fundamentada, bastando apenas a vontade do representante do Estado que ali está. Homens, mulheres e crianças são revistados indiscriminada¬mente, sendo submetidos a vexames diários. Festas são proibidas ou quando muito autorizadas conforme critério subjetivo do representante do Estado, mas com hora para acabar. Desapropriação de imóveis com indenizações irrisórias (para não dizer ridículas) de forma indiscriminada e pouco se importando qual o impacto na vida da pessoa “desalojada”.

Fica o questionamento: Será que existe alguma decisão judicial devidamente fundamentada que justifique todas essas medidas? O Estado sob a ale¬gação de que está colocando um fim à criminalidade, ao estado paralelo que não respeita a ordem jurídica vigente, comete os mesmo erros e pratica os mesmos atos que as “forças que o antecederam” praticavam. Usam da força, criam critérios conforme o momento e executam aquilo que entendem melhor. Um verdadei¬ro culto ao “...os fins justificam os meios...” ao ponto de remeter a uma expressão de Zaffaroni que ao ser indagado sobre o futuro do direito penal afirmou que: “A Legislação vai agravar mais, vamos fazer mais besteiras, vamos agredir mais a racionalidade e o ser humano. Talvez o povo vai descobrir que os políticos estão vendendo ilusões. Esse direito vai delimitar mais nossas liberdades. É isso que tentam fazer com o pretexto de dar mais segurança”.

Como admitir todas essas atitudes sem o devido processo legal? Como conceber a violação/restrição de direitos da pessoa humana sem uma devida decisão judicial fundamentada? Aceitar todas essas indagações sem ao menos questioná-las estamos diante de um verdadeiro “Estado de Exceção” con¬forme bem definido por Giorgio Agamben como “... a forma de legitimar aquilo que não é legítimo...”

Acabar com a criminalidade deve começar com uma estruturação social competente, educando nos¬sas crianças, possibilitando inclusão social aos mais necessitados e não limitando os direitos inerentes às pessoas de forma ilegal e arbitrária.

Reconhecer o dever de fundamentação das decisões judiciais, como requisito legitimador da atividade jurisdicional no seio do Estado Democrá¬tico de Direito, requer também o fortalecimento das instituições políticas e democráticas, a ampliação da cidadania ativa e o desenvolvimento dos instrumentos de deliberação pública. Logo, inevitável o reconheci¬mento da ilegalidade dos atos estatais praticados no interior das comunidades “premiadas” com a invasão do Estado. Invasão esta que não limitou-se apenas ao âmbito social/territorial indo portas adentro nos lares dos moradores sem ao menos pedir licença. Com o atual quadro social apresentado, apenas uma atuação respeitosa por parte do Estado (judiciário) contendo o próprio Estado (executivo) para frear as arbitrarieda¬des e recompor a ordem jurídico/democrática.


* Thiago Minagé é Advogado. Professor de Direito Penal e Processo Penal da Graduação e Pós-Graduação. Autor da obra “Da prisão, das medidas Cautelares e da liberdade provisória” pela EDIPRO.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

....fazendo justiça....






Nesta nova seção, o Blog Sem Juízo divulga decisões, pareceres e peças que valem a pena conhecer e está aberto a receber material*.


Conheça as primeiras:


ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA ORDEM

Sentença que negou a proibição da Marcha da Maconha, na cidade de Florianópolis.


O LUGAR DO MP NA SALA DE AUDIÊNCIAS

Sentença e pedido da Defensoria para readequação de sala de audiências criminais


PRISÃO DOMICILIAR PARA GESTANTE

Acórdão que garantiu prisão domiciliar a gestante em gravidez adiantada, antes da edição da lei 12403/11


1º CASAMENTO GAY: A SENTENÇA

Sentença que permitiu primeiro casamento gay no país, em interpretação à decisão do STF que garantiu a união estável homoafetiva


MP E A INSIGNIFICÂNCIA PENAL

Parecer em segunda instância pelo acolhimento do crime de bagatela


UMA SENTENÇA HUMANA

Juiz reconhece direito à moradia e nega reintegração de posse ao Estado


O JUIZ BRASILEIRO NA CORTE INTERAMERICANA

Voto em separado do juiz Roberto Caldas na decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, no caso Araguaia


EXERCÍCIO REGULAR DE DIREITO

Acórdão que absolve magistrado de crime contra a honra, por relato de irregularidades ao Conselho Nacional de Justiça

LINCHAMENTO, PROVA ILÍCITA E RELAXAMENTO DE PRISÃO

Decisão que relaxa prisão em flagrante de acusado de furto tentado, vítima de linchamento

*no e-mail marcelosemer@uol.com.br

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

....VEJA quer calar a democracia....

Descompromisso com razão nem é o que mais ressalta no artigo -a foto gigantesca de pupilos de Hitler, só se explica como um ato falho.






Tolice suprema, coleção formidável de bobagens, condoreirismo cafona.

Com esses e outros adjetivos ainda piores, o jornalista Reinaldo Azevedo iniciou, em seu blog, uma onda de ataques da revista VEJA à Associação Juízes para a Democracia (AJD).

Nos posts que buscavam detonar a associação por uma nota crítica à ação da Polícia Militar na USP, sobrou até para os educadores que seguem Paulo Freire: "idiotas brasileiros e cretinos semelhantes mundo afora".

O nível do artigo já se responde por conta própria.

Todavia, na edição impressa que veio às bancas no sábado último, o editor-executivo da revista subscreveu um texto que, sem qualquer constrangimento ou escrúpulo político, comparou a associação a um tribunal nazista.

O descompromisso com a razão nem é o que mais ressalta no artigo -a foto gigantesca de pupilos de Hitler, fora de tom ou propósito, só se explica como um ato falho. No artigo, Carlos Graieb utiliza expressões que se encaixariam perfeitamente no ideário nazista: propõe dissolver a associação "política" ou impedir que seus membros usem a toga.

Reinaldo Azevedo, com ainda menos pruridos no mundo virtual, explicitou, numa ação que evoca o macarthismo, os nomes de todos os diretores, representantes e membros de conselhos da entidade, alertando leitores para que jamais aceitem ser julgados por estes juízes.

Que competência ou legitimidade para a posição soi-disant de corregedor ele tem não se sabe. Mas seus seguidores foram instados a identificar os juízes associados pelo próprio colunista, que deu status de artigo a mensagem de um advogado falando do desembargador 'liberal' apreciador de samba.

VEJA está aturdida e indignada com a afirmação de que existe direito além da lei. Os nazistas também ficavam, porque as barbáries escritas no período mais negro da história da humanidade eram legais. Jamais deixaram de ser barbáries por causa disso.

A prevalência dos princípios constitucionais é o que propunha, sem grandes novidades, a nota da Associação Juízes para a Democracia. Se juízes não podem fazê-lo em um estado democrático de direito, na tutela da Constituição que prometeram defender, algo definitivamente está errado.

Mesmo para quem conhece a linha editorial de VEJA, cuja partidarização na política é sobejamente criticada, espanta que o interesse em calar quem pensa de outra forma, parta justamente de um órgão de imprensa.

Que a falta de pluralismo de suas páginas já fosse, por assim dizer, um oblíquo atentado à liberdade de expressão, o explícito intuito de extirpar opiniões contrárias não deixa de ser aterrorizador. Sob esse prisma, lembrar o nazismo não é mais do que medir o outro com a própria régua.

A Associação Juízes para a Democracia tem vinte anos de serviços prestados ao debate institucional na magistratura e fora dela - e eu me orgulho de fazer parte dessa história quase por inteiro.

A AJD tem entre seus objetivos o respeito incondicional ao estado democrático de direito e jamais deixou de denunciar quando este se fez ameaçado. Bate-se sem cessar pela independência judicial e é militante na consideração do juiz como um garantidor de direitos.

A promoção permanente dos direitos humanos, compartilhada com inúmeras outras entidades da sociedade civil, sempre incomodou aos que se candidatam a porta-voz dos poderosos. Mas recusamos o propósito de quem quer fazer da democracia apenas uma promessa vazia.

A associação nunca se opôs a criticar o elitismo no próprio Judiciário, nem temeu se mostrar favorável à criação de um órgão para exercer o controle externo. Tudo por entender que desempenhamos, sobretudo, um serviço essencial ao público - o que levou a AJD a participar da Reforma do Judiciário propondo, entre outros temas, o fim das sessões secretas e das férias coletivas.

Anticorporativista, a associação jamais defendeu valores em benefícios próprios, o que pode ser incompreensível em certos ambientes. Recentemente, bateu-se pela legalidade da instauração de processos administrativos contra juízes pelo Conselho Nacional de Justiça, na contramão de interesses de classe.

Em vinte anos, seus membros têm sido convidados a participar de vários debates no Poder Judiciário, no Congresso Nacional e também na mídia.

O exercício contínuo da liberdade de expressão, que fascistas de todo o gênero sempre pretenderam mutilar, não vai ceder ao intuito de quem pretende impor sua visão e seus conceitos como únicos.

VEJA não está em condições de ensinar estado de direito, se desprestigia a liberdade de expressão.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

....AJD: 20 anos para a democracia...

Bobeira é não viver a realidade....







Neste 2011, a Associação Juízes para a Democracia completou seus primeiros vinte anos.

De um grupo de 37 juízes paulistas que a fundaram em 13 de Maio de 1991, passou a contar com associados de todas as Justiças e de todos os Estados, exercendo sua vocação nacional.

No dia 25 de Novembro, a comemoração contou com o lançamento do livro AJD-20 anos para a Democracia (Dobra Editorial), na sede da associação de antigos alunos da Faculdade de Direito da USP. Ranulfo de Melo Freire, um dos fundadores da associação em 13 de Maio de 1991, nosso decano e guru, foi homenageado na ocasião.



(Dyrceu Cintra (dir) lê homenagem a Ranulfo de Melo Freire)



José Henrique Rodrigues Torres, atual presidente do Conselho Executivo, emocionou a todos os presentes com a sua Oração dos Vinte Anos, acompanhado por vários colegas.


Oração dos vinte anos!


Queridos amigos
Queridas amigas

Emprestando um verso de NERUDA, eu posso dizer que HOJE “no coração estamos todos juntos”.

E este momento de festa é o momento ideal para a lembrança de um significativo conto de Tolstoi:

IVAN VASSÍLIEVITCH, durante uma grande festa, viveu uma paixão avassaladora e acreditou que o amor, como grande força apaziguadora do Universo, era capaz de tornar todo homem bom, justo e solidário.

Mas, depois da festa, findos os acordes dos violinos, apagadas as luzes dos candelabros, finda a abastança do banquete, longe da beleza e da elegância dos dançarinos, e de seus sorrisos carinhosos, IVAN VASSÍLIEVITCH, ao assistir à tortura pública de um soldado desertor, promovida por um coronel que personificava a mais cruel e violenta tradição, foi tragado pela realidade e descobriu, na súplica desesperada daquele miserável, que era preciso resistir... e ele assumiu, a partir de então, a sua feição humana e percebeu que era imprescindível lutar contra as injustiças, contra a desigualdade e contra a violência e os abusos do poder.

Meus queridos amigos,
Minhas queridas amigas,

Vamos curtir esta festa maravilhosa, vamos comemorar, vamos celebrar, vamos nos deliciar com estes momentos de alegria, luzes e sorrisos, mas, depois da festa, lembremo-nos disso, nós voltaremos a ouvir os gritos dos miseráveis, que depositam em nós a esperança frágil de um olhar desesperado.

Depois da festa, a realidade nos espera ...

“E bobeira é não viver a realidade”!

Nós precisamos estar sempre prontos para ouvir a bulha de muitos MACUNAÍMAS e MACABEIAS dessa sociedade esmagada pelo arbítrio dos interesses privatistas e confusa diante da tradição positivista.

Depois da festa, nós continuaremos a conviver com uma sociedade DIVIDIDA na dissimulação do real e, CARENTE, clamando pela GARANTIA material de seus DIREITOS.

“A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente quer bebida
E quer fazer amor”

“A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente quer inteiro
E não pela metade...”


Não nos esqueçamos, então, de que está a nos aguardar uma sociedade imersa em uma realidade que é um verdadeiro “MONUMENTO À NEGLIGÊNCIA SOCIAL”, como diz HOBSBAWN!

Será impossível sair desta festa e deixar de ver as cidades em trapos, esmolando por dignidade, nas construções, com seus olhos embotados de cimento e lágrimas, nas fábricas, nos campos, nos cárceres, nas ocupações de terra, nas favelas, nos gráficos oficiais, nos lagos de Tântalo e nos brejos da cruz, onde crianças agradecem a Deus por esse chão pra dormir, pela certidão pra nascer e pela concessão pra sorrir.

Interesses de classes dominam as relações sociais,

MAS, enquanto isso, nosso sistema jurídico mascara contradições sociais profundas e antagonismos inconciliáveis, impondo-nos noções de igualdade entre classes, de unidade social, de identidade e de liberdade, onde na realidade só há divisão, ruptura, contradições, desigualdade, exclusão e opressão individual.

Nossa sociedade continua dividida e marginalizada, MAS, enquanto isso, FACULDADES DE DIREITO e ESCOLAS DA MAGISTRATURA funcionam como meros centros de transmissão do conhecimento jurídico oficial, reproduzindo a “sabedoria codificada”, ensinando apenas a convivência “respeitosa” com as instituições, IMPINGINDO-NOS uma formação bibliográfica e legalista de um pragmatismo positivista e CONDUZINDO-NOS uma especialização fechada e formalista e, especialmente, ao imobilismo acrítico.

Mas, nós, que aqui estamos, sabemos que não é possível sepultar o nosso ousio em manuais jurídicos e simplesmente acreditar no mito de uma sociedade sem fraturas.

QUERIDOS e QUERIDAS CÚMPLICES

Nós sabemos que é preciso fazer do DIREITO um verdadeiro fator de TRANSFORMAÇÃO SOCIAL, com compromisso ético e político.

Nós sabemos que é preciso deixar os gabinetes da solidão e a clausura dos alfarrábios, da jurisprudência, das doutrinas e dos códigos petrificados, para mergulhar de corpo e alma no mar picado da vida.

O poeta RUI GUERRA tem razão:

“é preciso conter a mão cega e bruta, que empunha a espada da opressão e da exclusão, que corta, com a lâmina fria da insensibilidade, a carne viva dos injustiçados”

Enfim, todos nós sabemos que é preciso fazer de nossas vidas uma constante e incansável conspiração contra o presente.

E é isso exatamente o que hoje nos traz a este encontro e a esta celebração: nós aqui estamos para reafirmar o nosso compromisso de conspirar contra o presente.

Conspiremos, meus amigos e amigas, contra este presente que está roubando o sorriso e a inocência das crianças descalças e famintas, que está calejando as mãos e consumindo a dignidade dos cidadãos e cidadãs sem-terra, sem-teto, sem-voz, sem-auto-estima, sem-saúde, sem-esperança, sem-cidadania, sem acesso à justiça, estigmatizados pela violência e encarcerados nas lágrimas da ignorância e da alienação:

“É preciso sempre lembrar do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas, e da força da grana que ergue e destrói coisas belas”.

Lembremo-nos, também, de GRACILIANO RAMOS e olhemos para as aves da arribação, sem acreditar, como supunha Fabiano, que são elas as responsáveis pela secura dos açudes e pelas misérias da vida.

Meus queridos amigos, minhas queridas amigas,

Esses VINTE ANOS nos ensinaram que É PRECISO CONSPIRAR E LUTAR!

Lutemos pela IGUALDADE material, pois a formal não basta!

Lutemos pelas GARANTIAS LIBERTADORAS.

Conspiremos, enlouquecidos de esperança.

E não há “nada a temer, senão o correr da luta”.

E, para lutar e entender o que é o direito, qual é a sua função, qual é o seu verdadeiro sentido, vivamos a aventura dos sentimentos, não sejamos CADÁVERES ADIADOS, como dizia FERNANDO PESSOA, lutemos com a bravura de DOM QUIXOTE, resistamos como resistiram nos sertões os apaixonados de CANUDOS, acreditemos nas feiticeiras de MACBETH, no amor de CAPITU e nos espectros de HAMLET, mas, sobretudo, vivamos o sonho real de MACONDO, porque a vida não foi feita para o direito: o direito é que foi feito para a vida.

Ouçamos CASTRO ALVES:

“Como o céu é do condor, a praça é do povo”.

Lutemos, pois, pelo acesso do povo às praças, ao pão, às terras, às escolas, e especialmente à justiça ... mas, nessa conspiração, depois da festa, nessa luta, que continuará sendo certamente o nosso dia-a-dia, o dia-a-dia da AJD, jamais nos esqueçamos de ouvir Renato Russo:

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.

E é preciso colocar esse nosso amor a serviço da humanidade e daqueles que caminham ao nosso lado nas ruas sem calçadas, que dormem em casas sem paredes e sem tetos e que lavram a terra apenas com a semente da esperança.

Então, “é preciso ouvir Chico Buarque de Holanda: contra a fé, moléstia e crime: vá de Dorival Caymi”

Meus queridos amigos,
Minhas queridas amigas,

Para terminar esta minha oração, e para que possamos voltar para a festa, eu lhes faço um pedido, em nome de todos os juízes e de todas as juízas que tanto lutaram e continuam lutando para escrever a história da AJD: se vocês realmente acreditam nessa sua luta, se vocês acreditam que podem transformar o mundo, se vocês querem prosseguir conspirando contra a injustiça e a desigualdade, FAÇAM O SOL SURGIR, neste momento, FAÇAM OS RAIOS DO SOL INVADIREM ESTE LUGAR, gritem, batam palmas, assobiem, mas façam a cortina da noite se afastar para que a luz do sol invada este lugar.

Vamos, eu quero ouvi-los todos gritando, aplaudindo, assobiando PARA QUE O SOL ILUMINE ESTE LOCAL.

(..................)
Basta. Basta. Basta.
Todos ouviram.
Não fiquemos frustrados porque a escuridão da noite não se afastou.
Não fiquemos tristes porque a luz do sol não iluminou este lugar.
O que importa é que nós acreditamos !!!
A nossa coragem basta.
A nossa determinação é tudo.
A nossa esperança vai transformar o mundo.
Vamos continuar semeando sonhos e estrelas.
E vamos caminhar de mãos dadas, pois, por onde vocês forem, eu quero ser seu par!

Que viva a AJD até que se realize plenamente
o sonho generoso do Milton Nascimento:

“Quero a liberdade,
quero o vinho e o pão
Quero ser amizade,
quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada.
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver
QUERO QUE A JUSTIÇA REINE EM MEU PAÍS”


Leia também:

Juízes para a Democracia: 20 anos dedicados ao garantismo

Há juízes no Brasil, por Marcio Sotelo Felippe